LUCUBRAÇÕES A RESPEITO DO ÓCIO

Em circunstâncias raras, desvio do itinerário que me conduz ao escritório e decido assistir a um filme em plena sessão da tarde. Cinema é antes de tudo, arte - a sétima, dizem -, no entanto, um segmento artístico inseparavelmente ligado ao entretenimento. Mas pensa que a diversão nesta conjuntura é saudável e relaxadora? Qual o quê! Em diversos instantes da sessão o pensamento é incitado por conflitos existenciais como: "se os impérios babilônio, persa e romano desapareceram por causa do ócio, imagine o meu negócio, que nada tem de imperial". Nessa hora, melhor seria desconhecer a História e, livre de tensões mentais, descontrair-se com o visual da Scarlett Johansson exibido nas cenas do filme.

Na antiga cabala judaica, "o nada" - que, por analogia forçada o substituo aqui por "fazer nada" - é a verdadeira natureza divina concebida como a transcendência absoluta em relação às realidades do mundo. Nos dias atuais, leia-se: congestionamento do trânsito, impostos abusivos, conversas na cama sobre sexo, discutir a relação, aturar políticos corruptos, tentativas de "conversar" com um software da companhia telefônica, dentre outros dissabores. Espertos, esses hebreus, hein? Mas eles estavam certos, o que precisamos, hoje, é de um pouco mais de filosofia. Acaso o amigo leitor conhece algum filósofo com estresse? Nem precisa responder, por antecipação sei que a resposta é "não".

Voltemos a atenção para a vida de Nietzsche, um praticante legítimo da condição "tempo desocupado". Porque, convenhamos, se este superastro da filosofia, dia-a-dia, batesse cartão de ponto na hora da entrada e da saída do trabalho, sequer escreveria cinco por cento da sua vasta obra. Certa feita, ele disse: "quem ama o abismo, necessita de asas". Quem de nós, mortais comuns, por mais apaixonados que fôssemos por este acaso originário da ação de agentes geológicos por eras a fio, caminharia próximo da sua borda sem acessos de pavor? Ninguém, exceto os filósofos. De imediato, eles criariam um artifício semelhante ao das asas nietzschianas. Dessa maneira, passear à beira de despenhadeiros é quase tanto agradável quanto deitar-se em uma rede e refrescar-se pela ação de Sherazades movendo abanos.

Além de derrubar impérios, o ócio também revolucionou as doutrinas ideológicas. Karl Marx, nascido em uma família de classe média, também era um filósofo contumaz da prática do "não estou nem aí". Mais tarde, na vida adulta, longe da comida caseira da mamãe, meteu-se em sérios apertos financeiros, porém, superou-os, casando-se com uma mulher de família nobre, e além disso, recebia providencial auxílio financeiro do amigo Engels, o qual, ao contrário de Marx, tinha talento digno de especulador de Wall Street para amealhar dinheiro. Dessa maneira, o tempo continuou sendo dadivoso para com ele, permitindo-lhe escrever a sua obra maior, O Capital, que culminou no marxismo ou socialismo científico, a doutrina ideológica de muitos sistemas econômico-sociais. É curioso, não? Desde aquele tempo essa turma da esquerda é excelente para planejar, e péssima para administrar recursos, especialmente financeiros.

Um dos precursores da implementação deste maravilhoso status "quem, eu me preocupar?" foi o filósofo grego Epicuro, lá pelos idos do século IV a.C. Cansado de toda aquela agitação da acrópole ateniense, comprou um imenso sítio nos arredores da cidade e ali reuniu amigos, amigas e numerosos discípulos em uma comunidade. A essência da sua doutrina? O bem é o prazer. Por sinal, o slogan do lugar era "aqui reside o prazer". E a prova maior de que ele estava certo é que, além de estar ali naquela vida boa, a filosofar, conversando com colegas, apreciando aquelas belas garotas que usavam um tipo de minissaia com um nome esquisito - quitão -, ainda teve tempo de escrever mais de trezentos tratados. Se existisse rock'n'roll naquela época, este seria o paraíso perfeito.

O ócio, para alguns, é um atormentador de consciências: "dormir até mais tarde? Humm... não sei... E se o senhor Pelópidas aparecer lá no escritório justo no início da manhã? Perderei o melhor contrato do ano". Jamais esquecerei de certo operário - competente e qualificado - que trabalhou em algumas das minhas obras mais antigas. Sempre que propunha-lhe trabalhar algumas horas extras no fim de semana com o objetivo de acelerar determinada etapa do cronograma, ele respondia: "porque faria isso, arquiteto? Deixar de tomar a minha cerveja; de assistir ao futebol; e de ficar com a família? Não matei a minha mãe!" Em seguida, soltava uma risada ruidosa. Admiro caras assim. Esclareço que, caso aceitasse, ele seria remunerado conforme a legislação específica para trabalho extraordinário.
Mas é preciso despreocupar-se, pois o futuro sempre vem. Ioga? Humm... muito tedioso. Um Spa? Não, muito chique. Contrariaria os meus princípios espartanos. Psicanálise? Não, não dá. Meteriam o bedelho nas minhas produções imaginárias. Tenho pretensões a escritor, além disso, não seria justo com a minha mãe. Quer saber? Filosofia! Sim, porque não pensei nisso antes? Começarei do começo. Alguém aí me empresta um Sócrates?

A GAIOLA DE FARADAY

Às vezes, desconfio de que o colégio ao qual frequentei durante parte da infância e por toda a adolescência, dissimulava em sua arquitetura austera e quase secular, uma Gaiola de Faraday1. A despeito da sua excelência no ensino, verdadeiro referencial para a região, ali, tudo se passava mais ou menos como no tempo do meu pai. Os professores, todos eles, ministravam as aulas vestidos de terno e gravata, à exceção do professor Agnísio, de saudosa memória, que ainda acrescentava a este traje convencional, um colete, de onde pendia o cordão de ouro de um legítimo, raro, e antigo Cyma de bolso.

Os livros adotados também eram parte essencial deste universo de ecos do passado, espessos e volumosos, qualificavam-se nestas categorias como verdadeiros páreos para Memórias Da Segunda Guerra Mundial, de Churchill. Tive sorte em não adquirir uma escoliose, especialmente nos três últimos anos correspondentes ao curso médio, pois carregava dia após dia, de casa para o colégio e vice-versa, livros de Física, Química e Matemática, de autoria dos Irmãos Maristas, Valdemar Saffioti e Jairo Bezerra, respectivamente. Sobre este último, além das características "padronizadas" dos demais, ou seja, espessos e volumosos, era impresso em letras miúdas e quase não havia ilustrações. Ao adquiri-lo na livraria, apesar de novo, tinha a sensação de que as suas páginas já vinham por antecipação, amareladas pelo tempo. Além disso, acredite se quiser, como complemento deste livro, ainda utilizávamos outro, a Tábua De Logaritmos, usada para calcular o logaritmo de um número em determinada base, uma criação do ano de 1614, por um matemático chamado Napier.
Morríamos de inveja dos livros de matemática, fininhos e fartos de ilustrações coloridas, dos amigos que estudavam em outros colégios. Até que um dia criamos coragem, formamos uma comissão e nos dirigimos ao mestre da disciplina: "professor, e sobre este negócio de Teoria dos Conjuntos que os alunos de outros colégios estudam? Chamam de matemática moderna. Nós, também, não vamos ver isso?" Sem mudar um és-não-és da sua fisionomia zen, ele nos respondeu: "qual nada, meus filhos! Em qualquer tempo a matemática é a mesma, dois mais dois sempre serão quatro". Sem argumentos, voltamos às páginas de Jairo Bezerra e à velha Tábua de Logaritmos.

Fui aluno deste professor nas três séries do curso colegial, portanto, tenho mais horas de demonstração de teoremas que urubu de voo. Para nós, alunos daquele lugar, não bastava saber que, num triângulo retângulo, o quadrado da hipotenusa é igual a soma dos quadrados dos catetos. Tínhamos que provar isso, analiticamente. E se não quiséssemos perder meio ponto num determinado quesito de algum exame, ao fim da demonstração de qualquer teorema ou corolário, éramos obrigados a escrever: "c.q.d.", iniciais de "como queríamos demonstrar". Assim mesmo, no plural majestático, fazendo uso da palavra "queríamos" em vez de "queria".
Se chegou até este ponto da leitura, decerto não se surpreenderá em saber da existência de censores no colégio. Também chamado de bedel - conforme a região do país - havia um para cada sala, responsável pela vigilância e manutenção da ordem nos intervalos entre aulas, especialmente na hora do recreio. Todos eram mulheres, e em sua maioria, quase velhinhas. Apesar de o apelidarmos com alcunhas vezes nada lisonjeiras, além de outras brincadeiras de gosto duvidoso, em todos estes anos, jamais soube da circunstância de que algumas destas senhoras delatassem para a diretoria algum aluno surpreendido em falta. Uma delas, chamada Dona Georgina, deu provas de possuir coração de ferro e resistência excepcional a sustos, à vista de muitas vezes aproximarmos-nos dela, por trás, silenciosamente, e numa corruptela do primeiro verso da famosa balada de Ray Charles, cantarmos, aos gritos, próximos ao seu pé-de-ouvido: "Georgina on my mind...".

Nesse tempo, tive as primeiras sensações de que as mulheres, de fato, deveriam governar o mundo, pois nunca presenciei e jamais soube de nenhuma ocorrência na qual alguma menina do colégio fizesse tais brincadeiras com aquelas simpáticas senhoras. Muito ao contrário, além de nos criticarem duramente por tais procedimentos, elas confortavam as velhinhas, e ainda ameaçavam delatar-nos para a diretora, a legendária Dona Lindaura.
De modo distinto dos alunos da maioria das outras escolas, estudávamos análise léxica e análise sintática, logo, em nome da boa linguagem, palavrões eram proibidos no interior da escola. O aluno surpreendido proferindo algum deles, era suspenso por três dias e só retornava acompanhado de pai ou mãe. Fazer tal comunicação aos pais era uma situação de perigo real e extremo, o "sentenciado" corria o risco de conversar, no céu, com John Lennon. Mas, nossos volumosos e espessos livros didáticos não serviam apenas para aprendermos que F = mg, nos auxiliavam também na criação de certos códigos. Por exemplo, em atitudes de raiva, em vez de proferirmos aquela famosa tríade de palavras cuja primeira começa com "p" e a última também, dizíamos: "butadieno!"; ou, "tetra-penteno!"; ou ainda, "Sá de Miranda!". Suponho que, lá em cima, o poeta nos perdoava, enfim, ele também foi jovem um dia. Em outra situação, se quiséssemos mandar certo colega àquele lugar, buscávamos ajuda na Biologia, usávamos a seguinte cifra, dita num tom de voz bem forte: "vacúolo...", aí, dávamos uma pequena pausa, e com voz fraca, complementávamos: "...endoplasmático!" Engenhoso, não?

Muito mais do que conhecimentos do tipo sen(a + b) = sen a.cos b + sen b.cos a, tínhamos, também, numerosas lições de vida ali. E a melhor delas era o eterno aprendizado no relacionamento com garotas. De flertes a amores platônicos, afinal, um dia, todos nós, casaríamos e teríamos filhos. Nesta questão, nossos livros espessos e volumosos, aparentemente, tinham pouco a contribuir.
Dessa maneira, certo dia surpreendi-me sonhando acordado e ouvindo baladas românticas - escondido dos meus amigos do hard rock e do heavy metal, é claro - por causa de uma garota da minha classe, de nome E.S. Naquele tempo, tinha surtos de timidez, então, tornara-se uma questão existencial para mim, a de como aproximar-se de uma garota bonita. Aproximar-se até que era fácil, difícil era convencê-la a dizer "sim" às minhas intenções. No parágrafo anterior escrevi que aparentemente os livros espessos e volumosos não tinham nenhuma serventia em equacionarem romances de amor. Porém, as aparências enganam, descobri que aqueles queridos e robustos repositórios de saber também poderiam acumpliciar-se às coisas do coração.

Não demorou muito, e certa vez, após soar a campainha que sinalizava o final da última aula, ofereci-me para carregar os livros de E.S. Resultava óbvio que na hipótese da aceitação daquele oferecimento, era tácito que o acompanharia até a sua casa. Ela fitou-me por alguns instantes com um olhar babilônio de surpresa. Minhas pernas, absolutamente fora do controle cerebral, tremiam à revelia, no tempo em que aguardava a resposta. Não sei se por virtude de algum interesse romântico, ou por comodidade em aliviar-se daquela carga digna do gigante mitológico Atlas, ela aceitou a proposta. Assim, mais carregado do que mula de garimpeiro montanhês - pois além dos meus, carregava também os livros dela - quase todos os dias o acompanhava até a sua moradia. De início, por conta da timidez, não conversávamos muito durante o trajeto, porém, satisfazia-me caminhar ao seu lado e lançar-lhe olhares de soslaio. Com o passar do tempo, sentia-me mais confortável e menos tenso em sua companhia, e até ousava, na linguagem dos tímidos, fazer insinuações à sua beleza delicada, demais outros engraçamentos singelos. Quase três meses depois, pela primeira vez adentrei o portão do jardim que frenteava a sua casa, e sob a cobertura da varanda que antecedia a entrada da residência, confessei a atração. Ela não demonstrou no semblante nenhuma surpresa, parecia que esperava que dissesse aquilo desde que Noé dera início à construção da arca anti-diluviana. Sorriu, olhou para o interior da casa com o fim de certificar-se de que ninguém nos observava, e trocamos o nosso primeiro beijo. Tímido, como deve ser o primeiro beijo dos melhores romances. Em seguida, entrou em casa, fechando a porta bem devagar, por etapas, sem que desviássemos os nossos olhares sequer por um segundo.

Saí dali nas nuvens. Dei alguns passos, iniciando o caminho de volta, quando avistei, adiante, uma lata vazia de Neston no meio da rua. Talvez por conta do calor do sol a prumo, ou pela falta de algum confidente o qual poderia compartilhar o meu estado de euforia, mirei as vistas na lata, acelerei a frequência das passadas, marchando em sua direção. Ao aproximar-me desta, apliquei-lhe um potente chute. A lata ganhou os céus tal como um Demoiselle movido por um combustível dito passion, percorrendo uma trajetória parabólica, indo cair muitos metros mais a frente. Para a minha sorte, não atingiu a cabeça de nenhum transeunte. E naquele instante, me pareceu verdadeiro o entressonho de que a trajetória de latas voadoras conspira a favor daqueles possuidores de corações pertinazes e apaixonados.

Mas, nem tudo foi um jardim de flores nesses quase três meses. Ainda no nascedouro, a notícia da minha atividade de carregador de livros de garota bonita correu pelo colégio feito rastilho de pólvora. E em tempo célere, fui objeto de ataques sucessivos de zombarias dos colegas. Numa prova de que as aulas da saudosa professora de português Teresa Ribeiro surtiam efeito, descortinaram uma coleção de sinônimos para qualificar-me: adulador, bajulador, puxa-saco, come-espiga, cortesão, quebra-faca, enxuga-gelo, escova-botas, dentre outros menos simpáticos. Mas não me importava, aquilo fazia parte do nosso código de honra zombeteiro, tinha força de lei. Além do mais, nunca desperdicei oportunidades de exercitar a minha paciência, tanto é que jamais deixei de abrir a porta de casa para atender a testemunhas de Jeová e de igual modo não declino em ouvir preceitos daquele pessoal da Seicho-No-Ie em aeroportos.
Nessa ocasião, outro detalhe fortificou ainda mais as minhas conjeturas de que as mulheres deveriam governar o mundo. Nenhuma das garotas tomou parte nestas investidas de gracejos contra mim, antes pelo contrário, muitas delas lançavam-me olhares maliciosos e sorrisos sutis, como se intencionassem transmitir um oportuno recado: "está no rumo certo".
E é claro que, um dia após o voo da lata, ao circular de mãos dadas com E.S. pelas dependências do colégio, as zombarias cessaram por completo, tornando-as meras reminiscências da força da perseverança. Disce pati, si vincere voles.

E SE QUISER SABER MAIS sobre a Gaiola de Faraday, inclusive da sua relação com viagens no espaço-tempo, leia um bom livro de Física, de preferência, é óbvio, dos Irmãos Maristas. No mínimo, vai compreender melhor os fenômenos daquela misteriosa ilha do seriado Lost.
;o)

Nota:
1) Gaiola de Faraday. É uma blindagem eletrostática, isto é, uma superfície condutora que envolve determinada região do espaço, a qual, sob certas circunstâncias, é capaz de impedir a entrada de energias produzidas por campos elétricos e/ou eletromagnéticos. Os efeitos no interior do condutor se anulam, resultando num campo elétrico nulo.
O nome é originário de um experimento feito pelo físico inglês Michael Faraday, em 1836, para provar os efeitos desta blindagem. Um exemplo prático desta experiência é a ocorrência de tempestades de raios que atingem um avião, sem afetar os passageiros. A estrutura metálica da aeronave (o condutor) recebe a carga elétrica e a distribui de forma homogênea, de modo semelhante à Gaiola de Faraday.

MEUS QUERIDOS FILMES RUINS

Há filmes ótimos; alguns, inesquecíveis; tem aqueles marcantes, em geral associados a um momento particular das nossas vidas; outros, são produzidos com orçamentos tão baixos que, inevitavelmente, resultam em trabalhos precários, despretensiosos, ruins. Contudo, ensinei ao meu coração ser generoso e reservar um lugar - dentre as minhas lembranças boas - até mesmo para alguns desses filmes, meus queridos filmes ruins. Nessa categoria, um dos meus favoritos é O Homem Cobra (Sssssss). O leitor amigo pode deduzir que apesar de filme B, o título original é profícuo em criatividade, pois utiliza-se de uma onomatopeia, Sssssss, o som característico emitido pelas cobras, o sibilar.

Você já se acostumou aos vilões carismáticos do cinema - aqueles que praticamente roubam a cena - como, por exemplo, Darth Vader, da saga Guerra Nas Estrelas; ou, se impressionou com o charme cibernético de HAL-9000, o computador malvado de 2001, Uma Odisséia No Espaço. Vilões tem seus objetivos, e por mais absurdos que nos pareçam, estes objetivos têm certa lógica; nefasta, é verdade, ainda assim, lógica. O doutor No, por exemplo, o cientista maligno do primeiro filme da série James Bond, O Satânico Doutor No, tem um projeto secreto para destruir o programa espacial norte-americano e, posteriormente, conquistar o mundo. O monstro Frankenstein, por sua vez, tinha lá suas razões para exibir tamanha revolta, pois com a aparência que lhe deu o seu criador, o doutor Henry Frankenstein, tornou-se extremamente difícil para a criatura o convívio social com as pessoas. Por conta desta total dessemelhança com Brad Pitt, a infeliz criatura ainda padecia de grande dificuldade em arranjar namorada. Outro caso de vilão que sabe o que quer é o de Sauron, da trilogia O Senhor Dos Anéis. Mesmo dando as caras em um único flashback - no comecinho do filme -, ele é onipresente ao longo de toda a história, deixando às claras a sua sede de poder.

Bem, agora que relembrou que os vilões são explícitos e lógicos em suas metas, surpreenda-se com a razão nada cartesiana do Dr. Carl Stoner - o cientista louco de O Homem Cobra -, o qual, por razões evidentes, conforme verão adiante, não goza de nenhum prestígio na comunidade científica. O doutor Stoner tem planos para transformar - através da injeção de um soro desenvolvido por ele - todos os seres humanos do planeta em cobras. Isso mesmo, todos! Homens, mulheres, crianças, toda espécie humana condenada a "falar" Sssssss para sempre e a rastejar sobre o próprio ventre.

Para cobaia do experimento, o doutor Stoner escolhe o seu assistente, por sinal, namorado da sua filha. Sob a alegação de que era um tônico fortificante, injeta graduadamente o tal soro no genro. E pensar que tem gente que fala mal das sogras, hein? Eu mesmo já ouvi muitos afirmarem que elas são verdadeiras cobras. Uma insinuação injusta, que conta com o meu repúdio. Mas mudando de sogras para cobras... mudando? Ora, não me confundam, "mudando", sim! Pois, são seres inteiramente opostos! Mas, aqui entre nós, eu aposto que você vai mostrar este post para a sua sogra, não vai? Assim como quem não quer nada... de brincadeira... dando risada: "dona Kruela, venha ver, olha só o que esse cara escreveu aqui!"
Dia a dia, o genro do doutor Carl Stoner, de modo paulatino, transforma-se num ente meio-homem, meio-cobra, e, por razões óbvias, mete-se em encrencas. Finalmente, angustiado com a metamorfose irreversível em curso, procura refúgio na floresta, onde se dá o ápice do filme: a transformação completa do infeliz numa cobra de verdade. Os efeitos especiais desta mutação, ou melhor, defeitos especiais - tamanha é a pobreza do evento - elevam a pretensa sequência de horror numa cena muito divertida. A sensação que passa, é a de que a equipe responsável por estes efeitos utilizou-se do Paint Brush, aquele singelo editor de imagens que vem grátis no Windows.

Uma vez cobra, o jovem assistente põe-se a rastejar, serpenteando pela floresta e fazendo "Sssssss", deparando-se, certo tempo depois, frente a frente com um mangusto. O genro de Stoner, ou melhor, a cobra, estacionou, fitando aquele animal dentuço e de aparência engraçada, sem desconfiar de que o destino reservara-lhe outra cilada. Quem assiste aos canais Discovery ou National Geographic, certamente já viu algum documentário a respeito do mangusto, um animal pequeno, porém muito voraz, tido como o maior predador de cobras do planeta. Leitores mais sensíveis, sejam fortes, pois o desfecho desse encontro é por demais melancólico. Sim, os seus temores, infelizmente, são verdadeiros, o ex homem cobra é devorado pelo insensível mangusto.
Mas, espere! Só agora percebi. Raios! Raios duplos! O que fiz? Contei um filme! E ainda por cima, ruim, muito ruim. Foi mal, hein? Desculpa aí!

Nota: O Homem Cobra (Sssssss). Direção de Bernard L. Kowalski. Elenco: Strother Martin, Dirk Benedict, Heather Menzies. Estados Unidos, 1973.

A VOLTA AO MUNDO A BORDO DE UMA LIVRARIA

Adoro livraria. É a mais culta de todas as lojas, além de um bom lugar para se divertir. Tem café expresso, sorvete, sofás e poltronas confortáveis, CDs, DVDs, Aspirina, quiosque do McDonald e, é claro, livros. Num dia de sorte você ainda pode surpreender aquele colega de trabalho de esquerda, entusiasta de uma nova revolução bolivariana nas Américas, bem de frente para a vitrina dos livros mais vendidos, folheando romances e novelas de baixa literatura. Ou, quem sabe?, flagrar aquela vizinha do andar superior, de ar compenetrado, óculos de aros baixos, supostamente, leitora compulsiva de Virginia Woolf, no momento exato em que ela acabou de pagar por um exemplar de O Segredo. E, o que é melhor, ela não pediu que embrulhasse para presente.

A livraria não é apenas um universo de três estilos literários - ficção, não-ficção e auto-ajuda -, também, é um lugar para se falar mal de livros. Antes, um esclarecimento, "ficção", como sabem, é o gênero daqueles livros escritos pelas pessoas que por anos a fio, na hora de dormir, contavam histórias para os filhos quando estes ainda eram pequenos. Dessa maneira, foram desenvolvendo uma incrível capacidade na arte de inventar. Infelizmente, alguns degeneraram para o território das mentiras colossais, como os políticos, por exemplo. Por outro lado, "não-ficção", geralmente, são escritos por aqueles que preferiam comprar livros de histórias para a criançada, em vez de contá-las, pois andavam sempre ocupados, escrevendo relatórios importantes, assistindo futebol na TV, ou vendo telenovelas. Finalmente, os categorizados como de "auto-ajuda", são redigidos por aqueles que não adotaram nenhuma destas práticas.
Fala-se mal de qualquer coisa, inclusive de livros. Tenho um amigo daqueles bem radicais, vegetariano, rato de cinemateca, fã ardoroso do cinema alternativo, tais como o iraniano, o paquistanês e o argentino, que não perdoa escritores que vendem muito; livros que viraram filmes; e aqueles escritos para pura distração. "O Código Da Vinci? Humm... virou filme, é ruim! Não leio baixa literatura". É curioso as categorias que inventam para a literatura: alta e baixa literatura, como se esta fosse a Idade Média. Quando era menino, li muitos livros de piratas que singravam os sete mares em busca de fortuna e aventura. Hoje, todos eles se classificariam como baixa literatura. O que eu sei é que, além das coordenadas da Ilha de Tortuga e outros conhecimentos adquiridos, me diverti muito lendo todos eles.
Analisemos a obra de Lord Byron - topo desta categorização literária - no poema Corsário, onde este escritor inglês narra as aventuras de Conrado, cavalheiresco pirata dos mares gregos, homem fatal, irresistível, às voltas com mulheres apaixonadas, além de um sultão turco chamado Seyd nos seus calcanhares, disposto a decapitá-lo assim que o capturasse. Confessem, com todo respeito ao poeta, não serviria de enredo para um emocionante filme de capa e espada estrelado por Burt Lancaster ou Errol Flynn se vivos ainda fossem?

Outro dia, diante de uma prateleira repleta de livros de auto-ajuda direcionados para a mulher, mirei num título inusitado: Homens São de Marte, Mulheres São de Vênus, de John Gray. Como é mesmo?, refleti, largando súbito o Neruda que segurava, dirigindo-me à toalete em busca de um espelho. Não que seja demasiado vaidoso com a aparência, mas ser parecido com um daqueles homenzinhos verdes, raquíticos e de cabeça gigantesca não era do meu agrado. Diante do espelho, senti-me aliviado, não que estivesse refletido ali nenhum George Clooney, contudo, era o meu rosto de sempre. Aliás, nesta mesma prateleira, mais à esquerda, havia outro título singular: Sorria, Você Está Na Menopausa, de Maria Helena Bastos.

Esse negócio de livros às vezes assusta. Não, não me refiro a nenhum conto ou novela de terror de Algernon Blackwood, mas de certo livro que encontrei na casa da tia Marizete, sempre lembrada pelo seu famoso bolo de chocolate das Sextas feiras. Enquanto aguardava o precioso manjar, corri as vistas pela sala, defrontando-me com o título do tal livro: Manuel De Sobrevivência Da Mulher De Meia Idade, de Léa Maria Aarão Reis. Sendo a minha tia uma viúva que mora sozinha, confesso, fiquei apreensivo. Em razão da sua faixa etária, estaria esta querida doceira de primeira linha, exposta a algum tipo de perigo mortal? A primeira sensação foi a de que aquele título sugeria um treinamento militar digno do Mosad. Raios duplos, pensei, por acaso um cyborg vindo do futuro - como aquele interpretado por Arnold Schwarzenegger em O Exterminador do Futuro (Terminator) -, estava a caça de mulheres de meia-idade, pronto para apontar-lhes um Kalashinikov e dizer-lhes: "hasta la vista, baby".
Frequentar livrarias tem dessas, dá asas à imaginação.

O FIM DA INFÂNCIA

O que é melhor, ser adulto ou ser criança? Eu aposto no empate. A psicologia define o adulto como o indivíduo que atingiu plena maturidade, expressa em termos de adequada integração social e apropriado controle das funções intelectuais e emocionais. Não que seja nenhum bad boy, mas, cá entre nós, leitor amigo, desconfio que o verdadeiro propósito dos psicólogos nesta descrição era definir um indivíduo muito enfadonho, praticamente, um chato de galochas.

E ainda que não seja nativo das terras de Peter Pan, mesmo assim, ao longo da linha do seu próprio tempo, convém prorrogar ao máximo o fim da infância. É garantia de levar adiante - para a nem sempre fácil vida de adulto -, o sentimento da espontaneidade; do manifestar-se como que por instinto, sem premeditação ou desvios. Em síntese, desfrutar melhor das vantagens da sinceridade em seu estado mais puro. É óbvio que cultivará uma pequena reserva de essências de hipocrisia e de falsidade, oportunas em dadas circunstâncias, pois se num determinado evento, ao ser apresentado àquele senhor de cabeça gigantesca, por certo conterá o ímpeto - ao contrário do que ocorre nas crianças - de chamá-lo de Cabeção, ou ainda, num exercício mental de criação mais apurada, apelidá-lo de Cabeça de Arromba Navio. Em sociedade, pratique, sempre, as boas maneiras.
Se, por exemplo, estiver num congresso da sua categoria profissional, na hora do cofee break, ali, de maneira discreta, entre os seus amigos mais chegados, não despreze a hipótese de uma frase mais espirituosa acerca do imenso nariz do último palestrante: "Viram aquilo? Quem sentou na primeira fila, por um triz não foi abalroado por uma narigada".
Outro procedimento saudável é não levar muito a sério o seu título de PhD, pois este poderá deixá-lo angustiado e obsessivo nas suas tentativas, dia-a-dia, de corresponder à demasiada importância que você o atribuiu. Imagine este cobiçado diploma como um não menos cobiçado Playstation III por uma criança. Nenhum adolescente, fã deste console, frustra-se pela condição de não conseguir zerar o jogo Resident Evil, muito ao contrário, ele conversa com amigos, tenta outras estratégias, e, nesse ínterim, sequer um minuto de diversão é desperdiçado.

No elevador, encontrou aquela vizinha amiga, colecionadora de títulos de MBA e um tanto estressada por excesso de trabalho no cargo de vice-presidente da Companhia Chupa Sangue S.A.? Não tente bancar o adulto, intencionando ensinar-lhe um daqueles mantras horrorosos - duuummm, zuummm, togiziduuummm - ou alguma daquelas posturas tediosas do ioga, capaz de fazê-la atingir o mocsa. Seja natural como as crianças, faça perguntas ou afirmações ingênuas, como por exemplo: "já assistiu ao filme A Volta Dos Que Não Foram? ou, "ontem, vi um filme muito bom, Poeira Em Alto Mar".

Porém, se é vintage e a sua preferência é o estilo retrô, experimente animar a sua vizinha estressada com este método do tempo do meu avô. Proponha o seguinte teste, tudo que disser-lhe, ela terá de responder - rapidamente - com a última palavra da frase que você usou, acrescida do vocábulo "arida". Por exemplo: se você diz, "eu vi um carro", ela responde, "carroarida"; e você continua, "eu vi um pássaro", ela replica, "pássaroarida". Você inventa mais umas três, e, finalmente, fala: "eu vi uma estopa", ela diz: "estoparida". Quando ela perceber a inocente armadilha, no mínimo, dá um sorriso. Algumas riem antes mesmo de responderem: "ah!..., já sei, estou parida".
Nesta mesma linha, tem outra igualmente apropriada para estas ocasiões, também do período paleolítico. Você pode pedir a alguém que repita várias vezes a seguinte expressão: "meu pai, Eva e Adão". Primeiro, bem devagar; depois, cada vez mais rápido. Vamos lá! Faça isso, e veja o resultado1.

Mas seja cuidadoso, prolongue o fim da sua infância com cautela e moderação, não esqueça que de fato você é um adulto, paga o leite das crianças, impostos, e os privilégios desmedidos de deputados e senadores. Portanto, não vá bocejar em demasia enquanto aquele casal de amigos, vibrando de entusiasmo, exibir para você o vídeo do primeiro aniversário do filhinho deles, por sinal, com direito a replay das melhores partes, ainda que este registro familiar - geralmente só visto com entusiasmo pelos pais do aniversariante - transmita a sensação de durar tanto quanto aquele famoso filme, E O Vento Levou. Tampouco faça cara de terror - como se estivesse de frente para Freddy Krueger - depois de ouvir a frase dita pela sua colega de trabalho após mostrar-lhe a fotografia do seu bebê, nascido de poucos dias: "não é uma gracinha?".
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Nota:
1) Esta não tem efeito em Portugal, pois, diferente do Brasil, onde o termo jocoso empregado para designar um gay, é "veado"; lá, eles usam a palavra "paneleiro".

FEZTA

O maior evento anual do Condado de Deux Chevaux

Criada por Sir Frederico Xavier e Sir Danilo Risada, a Fezta Medieval do Condado de Deux Chevaux é um evento temático que ocorre em Salvador, Bahia, no qual um grupo de amigos e convidados se reúnem anualmente, desde 2005, para se divertirem aos moldes das culturas da Europa e Oriente medievais.
O termo "Fezta" é uma licença poética, portanto, não representa um erro ortográfico.


Abaixo, vejam algumas cenas da Fezta:


E assistam ao clipe da emocionante Corrida Gaulesa:

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Muitos dos participantes da Fezta fabricam as suas próprias espadas, arcos e flechas, cotas de malha, escudos e elmos. Por sinal, o condado dispõe de uma forja rústica para o fabrico destes objetos. Mas a sua especialidade maior é a arquearia, o fabrico artesanal de arcos e flechas. Na sequência das imagens acima, poderão identificar uma réplica do arco longo inglês, outra do arco persa, dentre outros modelos.

A Fezta é realizada no mês de Novembro, inicia-se em uma Sexta feira, à noite, e prolonga-se continuamente até a noite de Domingo. Os participantes – divididos em quatro Casas, ou clãs -, alojam-se na edificação-sede do sítio, mas devido ao seu grande número, muitos trazem barracas de camping que são montadas no local.
Durante a noite a iluminação por lâmpadas elétricas é restrita às necessidades mínimas, prevalecendo luzes de velas e de candeeiros.
Confessem, muitos de você acreditavam que o Condado era pura fantasia, não? :o)

A ÚLTIMA FLOR DO LÁCIO

Se nascido fosse no Uruguai, yo hablaria castellano con gran placer. Mas, aprenderia português. E por não dispor de sextante nem astrolábio, se numa bruma impressentida a cegonha desviasse o rumo pré-estabelecido e fizesse do Afeganistão o meu lugar de nascença, a despeito das chagas que há tempo são lançadas sobre aquele país montanhoso, de mulheres tão bonitas, e de um povo em busca da longínqua identidade perdida, também não me importaria. Desde que houvesse a oportunidade de aprender o idioma português.

Considero o latim, escrito e falado, a língua mais bonita de todos os tempos. Até assisti três vezes aquele filme famoso, O Massacre da Serra Elét... ops, desculpem! O Massacre de Crist... não, não é isso! quero dizer, A Paixão de Cristo, de Mel Gibson, somente para ouvir os diálogos em latim entre as personagens romanas.
Mas o latim gerou filhas quase tão soberbas quanto ele, entre as quais, a derradeira das suas flores, a língua portuguesa. A última e mais bela das filhas do latim. A última flor do Lácio.
Dizem que é uma língua difícil. Para quem não fala, talvez. Quando era menino, conheci um dos melhores amigos do meu avô paterno, um sujeito engraçado, libanês de origem, e cujo nome fora aportuguesado para Jorge Gringo. Se existisse vida no Planeta Marte, o português falado pelo Sr. Jorge cairia como uma luva para língua nativa deste astro, pois era alienígena, se considerarmos a língua praticada nos países lusófonos como padrão. Certa vez, ouvi o meu avô, em tom de brincadeira, dizer-lhe: "amigo Jorge, és burro duas vezes. Primeiro, porque esquecestes por completo a tua língua nativa, o árabe; segundo, porque moras há mais de quarenta anos por aqui e nunca aprendeu a falar o português". Esta fala do meu avô acabou incorporada aos anais folclóricos da cidade.

Há idiomas ricos, a exemplo do alemão. Dizem até que é o preferido dos filósofos. Mas tem uma sonoridade... Se um indivíduo que não sabe sequer o significado de "Guten Morgen" nesta língua, ouvir a declaração apaixonada de um alemão à uma bela donzela, aos seus ouvidos lhe parecerá que o declarador está a xingar e a amaldiçoar a garota até as três gerações seguintes.

Mas se o prezado leitor é apreciador contumaz da música das palavras, da sutileza, da ambiguidade e da poética que impregna frases e até mesmo um único vocábulo, então, o seu negócio é a língua portuguesa. Voltemos na linha do tempo até a descoberta da Ilha de Vera Cruz, e pousemos nossos olhares sobre o pequeno trecho da crônica do nascimento do Brasil, a carta que o escrivão Pero Vaz de Caminha enviou a El-Rei D. Manuel: "... posto que o capitam moor desta vossa frota e asy os outros capitaães screpuam a Vossa Alteza anoua..." Raios duplos! Isto é português do tempo do rascunho da Bíblia. Modernizemos, pois: "...mesmo que o Capitão-mor desta vossa frota e também os outros capitães escrevam a Vossa Alteza a notícia do achamento desta vossa Terra Nova..." Citei esta parte da carta de Caminha somente para mostrar a singularidade do termo utilizado por este para caracterizar a nova descoberta, a palavra "achamento". Além de bonita, individualmente e no contexto, tem um sentido bucólico.

Na época de Machado de Assis, o escritor-mor do Brasil, e um dos contribuintes ao incremento da possibilidade de variadas entrelinhas à língua, o uso e o significado do vocábulo "aposentar", necessariamente, não era encerrar a carreira depois de certo tempo de trabalho, e daí em diante receber mensalmente determinada quantia. Também, era muito empregado com o significado de ocupar aposentos, alojar-se. Por exemplo: Maria aposentou-se na casa de José. Há muito que, com esta finalidade, este termo encontra-se em desuso, da mesma maneira que "achamento", empregado pelo escrivão português.

Mas assim caminha a última flor do Lácio, tal um organismo darwiniano, modificando-se, diversificando-se, e no rally tresloucado rumo à modernidade, alguns vocábulos ficam para trás, esquecidos para sempre, quiçá prisioneiros da própria trama da linguagem genuína, correta e pura. São substituídos por outros, não-castiços, muitas vezes sem reciprocidade no vernáculo, mas nem por isso, filhos bastardos. É falada e escrita de maneiras diferentes, ainda assim isto também não a faz imperfeita. E até mesmo quando submetida a maus-tratos, tornando-se às vezes, inculta; vezes, obscura; apesar de tudo, continua sempre bela.
E como não tenho o dom do fazer versos, transcrevo abaixo uma homenagem maior, a do poeta parnasiano brasileiro Olavo Bilac (1865-1918).


Língua Portuguesa

Última flor do Lácio, inculta e bela,
És, a um tempo, esplendor e sepultura:
Ouro nativo, que na ganga impura
A bruta mina entre os cascalhos vela…

Amo-te assim, desconhecida e obscura.
Tuba de alto clangor, lira singela,
Que tens o trom e o silvo da procela,
E o arrolo da saudade e da ternura!

Amo o teu viço agreste e o teu aroma
De virgens selvas e de oceano largo!
Amo-te, ó rude e doloroso idioma,

Em que da voz materna ouvi: "meu filho!",
E em que Camões chorou, no exílio amargo,
O gênio sem ventura e o amor sem brilho!

EU E A MINHA NAMORADA NERD - PARTE 5 (Final)

Um cara de dezenove anos que está a ponto de começar o segundo ano na faculdade e uma garota de dezessete, ainda no terceiro ano colegial, não são os melhores aspirantes a um casamento estável e feliz. Contudo, se de fato C. estivesse grávida, este seria o caminho natural da nossa relação.
Ganhava uns trocados dando aulas de matemática, à noite, em cursos preparatórios para o vestibular, além disso, começaria um estágio em uma grande construtora assim que retornasse a Salvador, com remuneração de um salário mínimo por mês. Avisara à minha família que quando recebesse o primeiro pagamento do estágio eu dispensaria a ajuda financeira mensal que recebia de casa. É claro que houve muitos protestos da parte dos meus pais, mas decidira andar com as próprias pernas. Estudava na melhor universidade do Estado, por sinal, pública, dessa maneira, juntando o que receberia da construtora e das aulas, calculei que poderia me manter. O meu plano era tornar esta experiência - a de ser independente, tão proveitosa quanto os conhecimentos que adquiriria na universidade. Era um projeto que batizei na época com o nome de "capitão de indústria", pois no futuro, depois de algumas experiências como empregado de empresas de construção civil, pretendia estabelecer-me por conta própria na área de incorporação imobiliária, ou seja, projetar e construir meus próprios empreendimentos nos segmentos habitacional e comercial, e vendê-los. Naquele tempo, ainda desconhecia a concepção de ser "espartano" - a filosofia de vida com base na disciplina, força de vontade, hábitos simples e falta de apreço por supérfluos, um conjunto de práticas capaz de preparar qualquer um para o confronto com possíveis tempestades no tempo que há de vir. Nada obstante, sem saber, eu já era um deles.
Ademais, após a formatura, também pretendia pós-graduar-me em engenharia econômica, complexo de conhecimentos que julgava indispensável para um pretenso candidato a empreendedor. Entretanto, diante da hipótese da gravidez de C., fora rebaixado por antecipação ao posto de soldado raso de indústria. Teria de abandonar a faculdade, retornar à minha cidade natal e arranjar um emprego por lá, além de contrariar uma lei natural, pois pelo menos durante certo tempo teríamos de morar na casa dos meus pais ou na residência da família de C. Mas caminhar sobre chapa quente não constitui obstáculo insuperável aos otimistas de coração, apesar das circunstâncias desfavoráveis aos meus planos, ainda vislumbrava algo positivo naquilo tudo, ao menos me casaria com a mulher de quem gostava, a garota mais doce debaixo deste céu. Teríamos uma vida inteira pela frente para falarmos de sistemas operacionais, linhas de comando e jogos de computador. Concluí que, lá no alto, as estrelas fugazes ainda reservavam algum tanto de faíscas para mim.

Estudamos o assunto "gravidez" por mais de cinco dias e decidimos que o melhor a fazer era um teste. Um exame de sangue estava descartado, pois não teríamos como escondê-lo das nossas famílias, muito conhecidas por boa parte dos médicos da cidade. Assim, o método escolhido foi caseiro, utilizaríamos o famoso teste de farmácia.
Adentrei ao interior da Farmácia Cabral, a maior da cidade, e de imediato constatei que adquirir tal produto era tão constrangedor quanto comprar preservativos. A drogaria estava em dia de grande movimentação de pessoas, de maneira que achei prudente elaborar uma estratégia segura com o fim de cumprir a missão com sucesso. Andei de lá para cá pelas seções, cumprimentei a comadre de uma tia, subi duas vezes à balança para verificar o peso, descartei uma vendedora, pois essas coisas somente são compradas a um vendedor, e sem que ninguém esteja por perto, especialmente mulheres. De repente, uma miragem, um vendedor solitário no balcão. O sujeito tinha ar displicente, rosto excessivamente magro, parte da cabeça, acima das fontes, destituída precocemente de cabelo, mas um triângulo capilar fronteiriço à testa o livrava da condição de calvo. Também despertava atenção no excêntrico balconista, um inusual bigode fino a la Errol Flyn, e, em especial, o curioso hábito de entortar a boca para um lado e chupar os dentes, produzindo um ruído característico. Olhei para um lado, para o outro, e perguntei-lhe com voz sussurrada se tinha teste de gravidez. Ele fitou-me por alguns instantes, apurando a displicência estampada na face, sustentou a condição boca torta, não parou de sugar os dentes e ainda acrescentou um cacoete inédito, empenou a cabeça para um lado. E nada respondeu. Indaguei-lhe de novo, incrementando sigilo na voz: "tem teste de gravidez?". Ele correu as vistas para o lado oposto do interior da farmácia, e bradou para um colega: "ô Arnaldôôô! Agente tem teste de gravidez?" Súbito, tornei-me uma celebridade por alguns segundos, pois muitos dos clientes olharam de modo curioso em minha direção. Raio de chupa-dentes, pensei. Mas as emoções mais fortes ainda estavam para acontecer, pois justo no momento em que ele entregou-me o sigiloso produto, fui surpreendido pela distinta senhora M.B., irmã da minha antiga professora de Ciências e pertencente a uma família quatrocentista de Ilhéus, a qual, gabava-se de um seu antepassado ter feito parte da comitiva que recebera o imperador D. Pedro II quando este aportou nesta cidade, no século XIX. Sorri sem graça para ela, e balbuciei: "não é para mim". Ele conservou a pose aristocrática, e respondeu: "é lógico que não". Deu meia-volta e caminhou noutra direção, seguida por uma variedade de fantasmas, antigos frequentadores da corte de D. Pedro II.
Para a minha alegria, o teste de gravidez de C. deu negativo, e o melhor é que dois dias depois ela submeteu-se ao mais confiável de todos os exames, menstruara.
Y en una noche tibia, onde estrelas fugazes bailavam numa coreografia cintilante sob o céu, depois de bater o recorde de beijos dados em uma mulher, embarquei de ônibus para Salvador.

Continuamos o namoro por e-mail, IRC, telefone e em visitas que fazia ao interior, nos feriados prolongados. No meio do ano, no Dia de São João, a festa maior do Nordeste, talvez por influência dos eventos das últimas férias, C. considerou que deveríamos casar-nos. Disse-lhe que aquilo era loucura, ela nem sequer era maior de idade, completaria dezoito anos em Setembro próximo, e, sobretudo, eu não tinha renda para sustentar uma família. Ela retrucou, afirmando que trabalharia em Salvador, estudaria à noite e que não fazia questão de vida suntuosa. Brinquei, lembrando-lhe a sua condição de filha única, que fazia parte de uma família de alto padrão econômico e que o nosso casamento sucumbiria no instante em que ela não pudesse trocar o seu computador dotado de processador Pentium MMX de 200Mhz, por outro mais avançado. Foram dias de trovão, mesmo com dezenove anos adoraria tê-la como minha mulher, porém, para vivermos sustentados pelos nossos pais, jamais. E no mês de Setembro, antes que C. completasse dezoito anos o romance encerrou-se. Até hoje ela nunca aceitou a minha recusa àquele plano tresloucado, se decepcionara de verdade. Também, jamais duvidei do acerto da minha decisão.

NO ANO SEGUINTE C. ingressou na faculdade, no curso de Ciências da Computação e casou-se no final deste mesmo ano. Mas a união durou poucos meses.
Não a via desde que terminamos o namoro, até que um dia encontrei-a por acaso e, meio-constrangida, ela contou-me que o seu casamento fora um erro. Quis deixá-la mais à vontade, e brinquei: "você nunca deveria casar-se com um cara que é usuário de um único sistema operacional". Era uma piada nerd. Eu, por exemplo, como um bom geek, uso três, o Linux - o meu sistema padrão, o Windows XP e o velho MS-DOS, todos instalados na mesma máquina. Ela sorriu, e fingindo-se de brava encostou com delicadeza o punho fechado no meu rosto, simulando um soco, e falou: "você foi o culpado! Me abandonou".
C. foi a única mulher com a qual mantive mais de um romance, todos os três arquivados entre as minhas melhores lembranças. Somos amigos até hoje, ainda gostamos de jogos de computador, da linguagem C++ e de operar máquinas utilizando-se de consoles. Apesar da sua alta qualificação em informática, quase sempre é derrotada por mim em jogos online. E nestas ocasiões, sempre repito uma expressão antiga e muito conhecida por ela: "hail to the king, baby!"1

SEJA UM GEEK VOCÊ TAMBÉM!

Ser um geek ou nerd é produzir um overclocking nos neurônios, forçando-os ao máximo, é muito mais do que gostar de jogos eletrônicos e de fazer peripécias em computadores. Logo, comece pelo que é mais divertido, os jogos. No clipe abaixo, selecionei algumas cenas dos meus preferidos, nos gêneros estratégia e first person. Comprovarão que alguns deles são cinematográficos. Já ouviram as minhas atuações aqui, como instrumentista doméstico de jazz e de música erudita, todavia, desconhecem o Pickwick rocker. Se lhe interessar, ouça a minha atuação na trilha sonora deste videoclipe. Aumente o som e let's rock!


video

A qualidade da audição é sofrível pelas seguintes razões, o arquivo original de gravação da música é no formato WAV, de tamanho igual a 30 Mb, muito grande para postar na internet. Para inseri-lo no clipe, o converti para o formato Mp3, com aproximados 3,5 Mb, resultando em grande perda de qualidade de áudio, por conseguinte, comprometendo parcialmente o som realístico dos instrumentos.
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Nota:
1) Tradução forçada: " Saúde o rei do pedaço, garota!" Expressão usada pela personagem de Duke Nukem, no jogo de mesmo nome. Neste contexto, saúde é o presente do subjuntivo do verbo saudar.

EU E A MINHA NAMORADA NERD - PARTE 4

Minha mãe ignorou a alegação "saliência zero" que atribuí à barriga de C, e contra-argumentou: "no começo é assim mesmo. Sabe muito bem que nestes casos a sua avó jamais erra". A fitei bem nos olhos, e percebi que a sua certeza era comparável a de Galileu em referência ao heliocentrismo. Dirigi, então, as minhas vistas para as de meu pai e notei que os seus olhos verdes-azulados tremeluziam, porém, em alguns daqueles micro-lampejos apercebi que a mesma incredulidade característica do apóstolo Tomé conflitava com o princípio de verdade necessária e cujo oposto é impossível, impregnado na afirmação da minha avó. Solidariedade masculina, ou não, aquele era o meu pai. Era ver para crer. Aquilo deu-me certo ânimo, e varri a minha mente em busca de uma saída. "A prima Ester", pensei. Sim, a prima Ester. Raios duplos! Como não lembrara disso antes? E na iminência da derrota mediante o embate contra "adversário" tão poderoso, ou seja, a minha avó, urgia empreender nova tática. Assim, optei por desqualificá-la em seu ponto mais forte: a sua vocação para exame de ultra-sonografia ambulante. Tocado por um sopro de confiança, senti certo alívio, e conjurei: "a reputação de infalibilidade papal desta velha em diagnósticos de gravidez está com os minutos contados".

Durante parte da minha infância e adolescência fui o comprador oficial dos remédios, dos cremes e das loções da minha avó. Esta era uma função cobiçada entre todos os meus primos, visto que a velhinha era generosa em remunerar tal tarefa, o que resultava em um pequeno adicional à mesada que recebia dos meus pais. Sempre tive como verdadeiro que tais medicamentos compunham o estratagema perfeito com o qual ela dissimulava a sua vaidade e real intenção, isto é, a compra de cosméticos, pois até os cem anos, quando enfim o seu coração parou, a sua saúde sempre assemelhou-se a de um touro, além da vaidade que o seguiu com fidelidade canina até o fim dos seus dias. Eram remédios inofensivos, daqueles categorizados como se bem não fizer, mal é que não faz. Antigos e superados mesmo aquela época, até hoje ainda me lembro do nome de alguns deles: Maravilha Curativa do Dr. Humphreys, Leite De Magnesia De Phillips, Vinho Reconstituinte Silva Araújo. Neste último, o próprio nome já constituía um fator de descrédito, pois o leitor há de convir que nenhum medicamento "sério" exibiria na composição do seu nome a palavra "vinho".

Ali, naquela sala, "acuado" de igual modo a um computador dotado de processador anterior à geração Core 2 Duo quando se abre vários aplicativos simultâneos, levantei-me do sofá e dei início à minha "defesa". De frente para a minha mãe, falei: "lembre-se da prima Ester". Meu pai movimentou-se no sofá e abriu os olhos de forma incomum, como se preste a ouvir revelações de confessionário. De imediato, a minha mãe baixou as vistas, sentando-se ao seu lado, provavelmente em busca de apoio para a minha tréplica. "Sim", continuei, "a pobre coitada, recém-casada, ansiosa para ter um filho, e sequer sem fazer um exame médico de verdade, deu crédito a afirmação de vovó quando lhe dissera que ela esperava um bebê". Era um caso conhecido na família, todavia já meio-esquecido. Nem bem se passaram duas semanas da previsão da velha, a prima Ester e o marido já haviam decorado o quarto do futuro nenê. Em cor-de-rosa, pois a velha também dissera que seria uma menina. Quatro anos depois, entre muitas idas e vindas a muitos médicos, laboratórios e hospitais, finalmente, o casal de primos foi agraciado com a tão sonhada criança. Um menino.
Sustentei que C. não estava grávida, afinal, éramos cuidadosos e responsáveis. Confesso que estas três últimas palavras causaram certo frisson, mas o meu pai, então, levantou-se do sofá dando de ombros, e falou: "se você diz, eu acredito". E fomos todos para a sala de jantar. Tive a sensação de que foi a primeira vez em que disseram crer nalguma coisa que afirmara, mas com reservas.
Mais tarde, por telefone, contei tudo a C., que ainda brincou: "ah! Que lindo. Bem que a sua avó poderia estar com a razão".

Minha mãe comentara com a minha irmã mais velha a respeito das suspeitas da vovó. No outro dia, no colégio, esta contou o episódio à sua melhor amiga, e é claro que pediu o maior sigilo sobre o assunto. Baseado no preceito de que todos tem um melhor amigo, a colega da minha irmã, por sua vez, transmitiu a informação à sua confidente mais próxima. Não é preciso maiores conhecimentos de matemática para supor que a notícia se espalharia pela cidade em progressão geométrica.
Logo, tornei-me o alvo principal da zombaria dos amigos. E durante todo o tempo, ouvia coisas do tipo: "e aí, se for menino, vai se chamar Tron?" Afora algumas mamadeiras e chupetas que ganhei de presente. Neste período, colhi mais dados para a teoria de que as mulheres têm origem em outro planeta, pois não houve sequer um indício de gozação da parte delas. Muito ao contrário, algumas até me olhavam com um misto de curiosidade e admiração. Às vezes, imaginava que me viam como se fosse um daqueles bichos de exposição, reprodutores de boa linhagem.
Mas, nessa vida, nada é para sempre. Dessa maneira, alguns dias depois o assunto foi esquecido por completo.
Vezes, acredito que por meios muito além das leis da mecânica celeste, o amor é capaz de fornecer lúmens extras às estrelas. Se não acredita, pergunte aos poetas. Eles sabem disso muito bem. Y en una noche hermosa de prenilunio, debaixo de um céu de iluminamento passional, bati à porta da moradia da minha princesa dos bytes. Mais graciosa ainda sob a luz das estrelas cúmplices, ela abraçou-me com a força de dez tigres, permanecendo daquele jeito, e em silêncio, por certo espaço de tempo. Perscrutei a noite e ouvi o que parecia o som de um soluço contido. Me liberei um pouco do seu abraço, olhando-a de frente. Incapaz de conter o choro por mais tempo, ela disse: "estou desesperada! Há onze dias que a menstruação não vem". Raios! Nunca mais voltarei a olhar para uma estrela fugaz, pensei. Aquilo tornara-se análogo a uma conspiração tramada no Kremlin.

Continua na Parte 5 (Final), em 02.05.2009. Até lá!
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Ilustração: The Gossip, de Norman Rockwell

EU E A MINHA NAMORADA NERD - PARTE 3

Dia-a-dia aquelas férias tornavam-se as mais inesquecíveis da minha vida. A paixão - seja de qualquer natureza, age de igual modo ao princípio da Lei da Alavanca, de Arquimedes, é o empuxo capaz de mover o mundo, além de geratriz de todas as coisas. Porém, não é privilégio apenas dos grandes feitos, como aqueles da odisséia de Vasco da Gama narrados em versos por Camões. Apesar da sutil predileção por revoluções, ela também manifesta-se em ações comuns, a exemplo da minha admiração pela maneira vintage de vestir-se de C. E é claro que dizia isso para ela. Omitir ou dissimular, por negligência ou não, as coisas que vêem ao coração, é o mesmo que amar o abismo sem possuir o dom de voar.

Os dias passavam e aproveitávamos ao máximo a incrível aventura de nos descobrirmos. Cantava baladas melosas de James Taylor para ela; ouvíamos guitarras virtuosas de dinossauros do rock; e hackeávamos códigos-fonte de jogos 3D1 de computador só para escrevermos mensagens românticas um para o outro em uma parede ou numa porta dos cenários destes jogos. Certa ocasião, desenhei um outdoor no cenário do episódio Los Angeles Meltdown do jogo de computador Duke Nukem 3D, com a frase: "C. should not die, 'cause I love her"2. Era uma brincadeira romântica a la geek que referia-se a uma circunstância do contexto deste jogo, pois no decorrer da ação, frequentemente o herói deparava-se com a mensagem "Duke Nukem must die"3 escrita em graffiti pelos vilões em algum lugar dos ambientes por onde ele transitava. Neste caso a cidade de Los Angeles, parcialmente destruída por um grande terremoto e infiltrada de seres alienígenas. Ela diz que até hoje ainda guarda o screenshot4 desta cena, isto é, a "fotografia" do outdoor que desenhei.

De outra feita, à custa de muito trabalho adulterei o arquivo cfg - escrito em linguagem C++5, de um jogo chamado Quake e substituí o nome original de uma personagem feminina pelo dela, além de atribuí-la a qualidade de invulnerável e acrescentar mais poder letal para as suas armas. Dessa maneira, nos jogos coletivos em redes domésticas de computadores que ocasionalmente montávamos em casa ou na de amigos, ela jamais seria destruída. "C. nunca morre", dizia-lhe baixinho ao ouvido. Ela olhava para mim com o mais cúmplice dos sorrisos e beijava de leve o meu rosto. Sob protestos dos demais, é óbvio, que manifestavam-se em coro: "Êêêê... isto é um jogo e não uma lua-de-mel". Para uma garota nerd, acredito que aquilo era tão significativo quanto receber um caminhão de flores.

O fim das férias aproximava-se e por conseguinte a iminência do meu retorno à faculdade, em Salvador. Certo dia, ao chegar em casa acompanhado de C., como já tornara-se corriqueiro, mais uma vez encontramos a minha avó em visita à casa dos meus pais e, como sempre fazia, a velha a cobriu de beijos, abraços e mimos. Já me acostumara aquela cena, porém neste dia tive a sensação de que a duração do abraço da velha consumira pelo menos o dobro do tempo se comparado aqueles de outras ocasiões. Além do mais, durante o prolongado e afetuoso amplexo a velha não parava de repetir: "oh, minha netinha; oh, minha linda netinha!" E enquanto nos dirigíamos ao meu quarto, C. disse: "a sua avó é tão carinhosa comigo". "Não me surpreende", respondi, "você derrete até geleira glacial".
No comecinho da noite, depois de levar C. à sua residência, ao retornar, a minha mãe chamou-me a uma sala da nossa casa que era reservada para receber visitas. Meu pai encontrava-se lá, sentado no sofá, e curiosamente notei que a TV estava desligada. Beijei-o, e em seguida sentei-me ao seu lado. Quando ia indagar porque não estavam assistindo ao noticiário da TV, a minha mãe - ainda de pé, falou: "A sua avó diz que C. está grávida". Em minhas lucubrações sempre idealizei que teria seis filhos, mas aquele não era o momento certo para iniciar tal prole. "Grávida?", retruquei, "como ela pode dizer isso, se a sua barriga está mais reta que uma tábua".
A minha avó celebrizara-se na família pelo curioso ato de "bater" os olhos na barriga de uma mulher e "diagnosticar" se esta encontrava-se grávida, ou não.
Raios de estrelas fugazes! Como argumentar contra esta afirmativa da minha avó, se a velha exibia em seu "currículo" uma margem de quase 100% de acerto em suas previsões?

Continua na Parte 4, em 24.04.2009. Até lá!
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Notas:

1) A visão de um jogo 3D é a mesma de quando se assiste a um filme, com a diferença que você interage com a história, desde as ações mais singelas, como por exemplo, abrir portas e mover objetos, até cumprir objetivos complexos. Nos últimos anos este segmento da informática investiu forte em desenvolvimento, especialmente no realismo das cenas e efeitos especiais. Tanto é o esmero, que até mesmo orquestras sinfônicas famosas são contratadas para a execução das trilhas sonoras de muitos deles. Ou bandas de rock, naqueles de muita ação.
A indústria dos jogos tem faturamento anual duas vezes maior que a indústria cinematográfica de Hollywood;
2) C. não deve morrer, porque a amo;
3) Duke Nukem deve morrer;
4) Imagem capturada da tela de um computador por uso da tecla "Print Screen"; ou por um mecanismo do próprio software; ou ainda por um aplicativo independente;
5) C++ é a linguagem de programação mais utilizada no desenvolvimento de jogos de computadores e de consoles do tipo Xbox, Playstation ou Super Nintendo. É responsável, dentre outras coisas, pela "inteligência artificial" das personagens.

EU E A MINHA NAMORADA NERD - PARTE 2

Naquele dia, saí da casa do meu primo ao pôr-do-sol, somente depois que a mãe de C. veio chamá-la.
À noite, telefonei para ela. E eu que sempre detestei falar nestes aparelhos por mais de cinco minutos, desta vez esquentei a orelha, pois conversamos durante quase duas horas. Nesse intervalo, fiz descobertas mais maravilhosas que as de Vasco da Gama, o maior navegador de todos os tempos. Dizem que todo nerd ou geek - além de amar a tecnologia, brinquedos eletrônicos e ciências matemáticas, coleciona alguma coisa. Descobri, também, que C. colecionava a vanguardista Sin City, de Frank Miller, portanto, do mesmo modo que eu, uma iniciada em histórias em quadrinhos. Desde aquela ápoca, e até hoje, ainda coleciono revistas antigas deste gênero. Possuo exemplares raros, originais e escaneados, de publicações das décadas de 30, 40 e 50. Clássicos de Alex Raymond, Will Eisner, Sax Rohmer, dentre outros.

Após desligar o telefone, fiz conjeturas assombrosas: a C., apesar de mulher, sabia tudo que os meus melhores amigos sabiam sobre jogos de computador, RPG, linhas de comando, linguagem de programação, histórias em quadrinhos, hard rock e heavy metal. Com mil bytes! Isto era um acontecimento tão raro quanto uma conjunção de planetas. O que mais poderia desejar? Uma estrela fugaz iluminava os meus passos.

No quinto dia do romance, no início da tarde, levei a C. à minha casa, queria mostrá-la o meu arsenal geek. Apresentei-a à minha mãe e também à minha avó materna que por lá encontrava-se em mais uma de suas visitas frequentes. A velha a cobriu de mimos, abraços e beijos, como se C. fosse a sua neta mais querida.
Naquele tempo, não era corrente uma garota permanecer durante uma tarde inteira no quarto do namorado, todavia, os meus pais confiavam tanto na orientação dispensada aos filhos que jamais houvera nenhuma restrição a tais circunstâncias. Ainda que a minha avó fosse radicalmente contra esta atitude um tanto liberal dos meus pais. "Com estas modernices, qualquer dia destes vocês ganham um netinho", cassandreava a velha.
Ao final da tarde levei C. de volta para a sua casa, e ao retornar, deparei com a minha avó a qual, entre outros agrados, disse-me: "são muito bonitos os olhos verdes e as pernas de miss da sua namorada. Vocês formam um belo casalzinho". A velha fazia uma alusão aos paleolíticos e kitsches concursos de beleza da época, tais como o Miss Universo e o Miss Mundo. Sorri de leve e caminhei na direção do meu quarto. No momento exato em que descalçava um dos sapatos, como é frequente no Windows, o meu cérebro travou ao lembrar de um detalhe da frase dita pela velha: "pernas de miss". E ainda de igual modo a este software monopolista, como o meu cérebro não é dotado de memória swap - um reforço extra presente no sistema operacional Linux, considerei que melhor seria submetê-lo a um boot, ou, no dizer dos não-geeks, reiniciá-lo.

Com mil kbytes! De uma só vez fizera duas descobertas importantes sobre homens e mulheres. A primeira, referia-se as razões pelas quais a maioria dos meus amigos zombavam de mim logo que souberam do meu envolvimento com C. Eles a consideravam chata, compenetrada e CDF1. Além disso, também diziam que ela passava tempo demais diante de um computador. Percebem a relatividade das coisas? Pois, qual mortal, hoje, ficaria um dia sequer longe desta máquina? Mas as motivações das chacotas dos amigos agora tornavam-se claras como o mais puro cristal. Senão, vejamos. Os três maiores temores que acometem a maior parte dos homens ao abordarem uma mulher são, em ordem decrescente: 3) que ela seja eclética, dotada de muitos conhecimentos; 2) ou, muito bonita; 1) e a pior situação, ela possui ambos os atributos citados anteriormente. Neste caso, é uma situação análoga aquela de prestar exame para obter carteira de motorista, dá a maior tremedeira nas pernas. Para muitos, é mais fácil enfrentar o Godzilla.
Mas a segunda descoberta foi ainda melhor. Não é que a minha avó tinha mesmo razão? De tão fissurado no conteúdo intelectual de C., eu mal percebera as suas lindas e sutilmente torneadas pernas. Era uma ocorrência inédita para mim, pois do contrário de qualquer daqueles personagens-cabeça de Virginia Woolf, até então jamais me aproximara de qualquer mulher - com intenções de romance, que não fosse movido por atração física. Urgia conhecer melhor o mapa topográfico da minha nova namorada. Assim, designei à minha imaginação o comando de uma nave espacial semelhante a X-Wing, aquela do Luke Skywalker. E tomei o rumo do hiperespaço. Na forma de um holograma tridimensional, comecei a materializar a C. em minha mente, além de atribuí-la componentes femininos de outros povos. O nariz, me parecia meio-egípcio, assemelhava-se ao de Cleópatra. E, sendo esta poderosa e fascinante rainha pertencente à dinastia ptolemaica, resultava em C. um charmoso plugin: um nariz mesclado com um quê de grego. Ah! Que nariz! Quanto aos olhos, eram expressivos e claros como os de uma variedade de mulheres libanesas. Pescoço e busto, lembravam aqueles das mulheres da antiga Pérsia, o povo mais belo do oriente, segundo Heródoto. Naquele momento, nem o próprio Michelângelo era páreo para a minha faculdade imaginativa de esculpir a C.

Algumas horas depois, à noite, quando fui à sua casa, contei essas coisas para ela. De início, ela avermelhou igual a um antigo comunista da Albânia. Depois, riu muito. Também, disse-lhe que a circunstância de descobrir que ela era uma bonita garota somente cinco dias depois do início do namoro até que seria bom para o relacionamento. Pois que, se no futuro - além de nerd, ela se tornasse uma feminista ortodoxa, jamais poderia acusar-me de que me aproximei dela exclusivamente por causa dos seus lindos olhos e das suas pernas deliciosas. Antes de tudo, eu me apaixonara pelos seus neurônios. Ela sorriu meio-tímida e me deu um beijo mais longo que o processo de inicialização do Windows Millenium2.
Com mil megabytes! Uma constelação de estrelas fugazes me iluminavam. ;o)

Continua na Parte 3, em 17.04.2009. Até lá!
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Notas:

1) CDF, iniciais de cu-de-ferro. Pronuncia-se "cê-dê-efe". Diz-se de, ou pessoa que leva extremamente a sério seus trabalhos, estudos e compromissos.
Fonte: Novo Dicionário Eletrônico Aurélio, versão 5.0.
2) Por consenso mundial, a pior versão do Windows em todos os tempos. Nem mesmo o Windows Vista conseguiu superá-lo por mau desempenho. ;)

EU E A MINHA NAMORADA NERD - PARTE 1

Foi um romance que começou por causa da BFG 9000. A menção deste nome, fez-me olhar com visível interesse para aquela garota de óculos de lentes espessas e esverdeadas - do tipo fundo de garrafa, como se diz em sentido pejorativo. Em seguida, ela referiu-se à necessidade da criação de um arquivo1 BAT. E neste instante, em minha mente, ouvi sinos de catedral que sonorizavam My Funny Valentine, enquanto o meu coração balouçou que nem a nave de Jasão na tempestade, no tempo em que este buscava o Velo de Ouro. Encontrara a minha Medéia, pensei.
Mas, espere! BFG 9000? Raios! Mesmo aqueles que já souberam o que é isto, com certeza há muito já o esqueceram. É por estas razões que, exceto eu, é claro, não confio em ninguém com mais de trinta anos. Pessoas acima desta idade descartam tudo aquilo que não mais lhes parece assunto sério.
BFG 9000 é a arma mais poderosa da legendária série de jogos de computador Doom I, II e III - um dos primeiros da era 3D, depois reintroduzida posteriormente em outro jogo clássico, Quake II, dos mesmo criadores de Doom.

Conheci esta garota - vizinha de uns parentes meus, enquanto consertava o primeiro Doom - que "teimava" em não carregar, instalado no computador de um primo pequeno. Nesse tempo, o Windows 3.x dava os primeiros passos, entretanto, a maioria dos aplicativos ainda eram nativos do sistema operacional MS-DOS, aquele de "cara" preta, letras brancas e sem nenhuma interface gráfica. De certa maneira, até o lançamento do Windows 95, o velho DOS ainda era o "chefe", pois o Windows não carregava sem ele.
Quanto a arquivo BAT, é aquele originário de uma sequência de comandos que carregam um aplicativo sem a interferência do usuário. Por exemplo, para executar o jogo Doom no sistema operacional DOS, e supondo que o arquivo executável deste programa (doom.exe) estivesse no sub-diretório "Doom", pertencente ao diretório2 "Jogos", o qual, por sua vez, encontrava-se no diretório raiz, o famoso C:\>, teria que digitar na linha de comando ou prompt, o seguinte: CD\Jogos; depois, CD\Doom; e em seguida, doom.exe. Esta série de comandos iniciaria o jogo. Um nerd ou geek, criaria um arquivo BAT e digitaria apenas doom.bat, e o aplicativo começaria de imediato. Hoje, ao clicar em um atalho localizado no menu "iniciar" do Windows, ou na área de trabalho, executa-se qualquer aplicativo. Simples, não? Porém, este procedimento intuitivo e conformista, transformou a maioria dos usuários de computador em eternos dependentes dos filhos ou sobrinhos adolescentes para consertarem os desajustes mais singelos desta máquina.
E se você ainda não entendeu o que é um arquivo BAT - por sinal, utilizado até os dias de hoje, não tem nenhuma importância. Exceto se for um hacker, ou pretenda invadir o site da Microsoft, ou disseminar um vírus, ou inserir um trojan remotamente em um computador, ou roubar senhas de blogs , do MSN e de e-mails. Fora destes propósitos, você jamais necessitará dele.

Sempre me considerei meio-geek3, e ouvir daquela garota termos como BAT e BFG 9000, foi uma emoção arrebatadora. Assim, juntos, carregamos o jurássico editor de texto do DOS e começamos a criar o tal arquivo BAT. Findo o trabalho, digitei doom.bat no prompt, e o jogo carregou de primeira. Eufórico, bradei: "damn I'm good!"4 Ao que ela retrucou: "piece of cake!"5 Raios duplos! Estaria sonhando? Ambas as frases eram falas de Duke Nukem, uma das mais queridas personagens de jogos de computador de todos os tempos. Bati a palma da minha mão na dela, nos abraçamos e por pouco não a beijei.
Pedi ao meu primo para continuar o jogo, e enquanto ele detonava aliens malvados, eu e a C., este era o seu nome, conversávamos sobre tecnologia em geral. Falamos de jogos de computador, de outros programas, do velho Atari, de peripécias mais ou menos inocentes que fazíamos no Telnet6 e de experiências com overclocking7. Também criticamos a instabilidade do Windows em relação ao DOS, e ainda fizemos chacota com a famigerada mensagem do Windows que surgia em muitas ocasiões quando algum aplicativo travava: "este programa executou uma operação ilegal, e será fechado". Lembram-se de que na maioria das vezes, após esta mensagem, era preciso acionar duas vezes o célebre comando de combinação de teclas ctrl + alt + del para reiniciar o computador? Além do incoveniente de se perder todo o trabalho que não estivesse salvo.
Aquela tarde teve o mesmo efeito de um primeiro encontro. Era como se estivéssemos num bar intimista, a ouvir The Way You Look Tonight, tomando martinis e colocando cerejas um na boca do outro. Afora, o melhor nestas circunstâncias: muitas trocas de olhares derretidos.
O gatilho da paixão tem muitas moradas, às vezes, por um período efêmero, deixa os versos das canções dos bardos, dos trovadores e dos menestréis; dos poetas, enfim, e dissimula-se entre bites e bytes. E espera, paciente, o momento propício do disparo. Imagino que, em tais contextos, no instante do tiro, este dispositivo passional utiliza-se de algo como .exe; ou, .bat.

Continua na Parte 2, em 10.04.2009. Até lá!

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Notas:

1) Ficheiro, no dizer dos amigos portugueses;
2) Antiga denominação de pasta;
3) Sub-categoria de nerd;
4) Tradução forçada: "eu sou bom mesmo!"
5) Tradução forçada: "moleza!" (no sentido de fácil);
6) Pequeno emulador de terminal que permite acessar aplicações em outros sistemas, isto é, em outros computadores de uma rede, ou de redes externas via internet, em uma sessão remota, ou seja, o seu computador permanece "invisível" a todos os outros. É um pequeno programa embutido em todas as versões do Windows, desde a 3.x até a do XP. Tem interface parecida com a do antigo DOS e a do console do Linux. Se quiser conhecê-lo, no menu "iniciar" do Windows, clique em "executar", localizado abaixo de "pesquisar". Em seguida, digite telnet e aperte a tecla enter. Pronto, você carregou o programa Telnet. Conheça alguns comandos deste aplicativo, digite help no prompt. Para encerrar a sessão, digite a letra q (de quit) e tecle enter.
7) Processo mecânico-caseiro de forçar um hardware, alterando as suas configurações originais, com o fim de se obter desempenho máximo do computador. Por exemplo, de processadores ou adaptadores de vídeo com aceleração 3D.
Certa vez, queimei uma preciosa Voodoo 3, numa operação mal sucedida. A Voodoo 3 era a melhor placa aceleradora de vídeo da sua época.

PICKWICK VAI A UM CURSO SOBRE VINHOS

Desde civilizações ancestrais, o vinho sempre despertou grande fascínio no homem . Baco, o deus romano do vinho - o mesmo Dionísio da mitologia grega, era filho da mortal Sêmele com o deus Júpiter, il cappo di tutti i cappi dentre as divindades de Roma. Além de gerir os negócios do vinho, Baco também representava a embriaguez. Não era para menos, com um pai sempre ausente e urdindo estratagemas para arranjar namoradas, o menino Baco, carente da devida orientação paterna, estava mesmo destinado a embriagar-se em incontáveis ânforas de vinho, além de tornar-se o patrono das bacanais, os festins romanos realizados em sua honra. Certa ocasião, para seduzir uma garota de nome Leda, o pai de Baco transformou-se em Cisne. De outra feita, querendo levar para a cama outra moça chamada Ganimedes, metamorfoseou-se em águia. E, por um romance passageiro com a linda Dânae, fez-se em chuva de ouro. Tenho cá minhas dúvidas sobre a eficiência desses métodos nos dias de hoje, talvez, em alguns casos, o velho truque da chuva de ouro ainda funcione.

E não é que certa vez, um dos membros de um grupo de praticantes de corrida diária, do qual faço parte há mais de dez anos, tentou convencer-me e aos demais, a nos inscrevermos em um curso sobre vinhos. Por Júpiter! Não que goste de ser "do contra", contudo, desde que me entendo por gente, pelo simples ato de levar à boca determinada bebida ou certo alimento, eu já sei se o gosto é bom ou ruim. Por quais motivos, então, eu teria que assistir aulas para alguém me dizer isto? E além do mais, ainda ter de pagá-lo.
Num mundo onde tantos tem fome e sede, sou arredio por natureza a esses cultos modernos à gastronomia e aos vinhos. No entanto, sob protestos, e assumindo o corolário muito utilizado pelo querido tio Walmir, "de graça, até injeção na testa", resolvi comparecer a uma aula gratuita de demonstração.

Chegando lá, o professor-sommelier cumprimentou a classe com um cordial "saudações báquicas". Perceberam, não? Báquico, relativo a Baco, o tal das bacanais. Por um instante até me animei, e corri os olhos para os lados da sala na expectativa de lindas strippers adentrarem o recinto em uniformes estilizados de aeromoças ou enfermeiras, dentre outros devaneios masculinos, enquanto pisoteavam bagos de uva ao som de My Funny Valentine. Súbito, retornei da doce miragem, quando alguém chamou por meu nome. Sem pestanejar, respondi: "presente". Sim, senhor! Tinha até chamada, João, Maria, Francisco...
E o sommelier deu início ao curso, afirmando que o vinho deve ser analisado em três fases: visual, olfativa e gustativa. Como vocês já sabem, não aprecio esse negócio de ser "do contra", assim, evitei semear a cizânia entre os colegas, conjeturando comigo mesmo: se os olhos são meus; o nariz também; e da mesma maneira, a boca, como esse cara vai saber qual o vinho que mais me agrada? Hão de concordar que estou coberto de razões.
Mas à medida que a aula avançava, fui tomado de assalto por um incômodo pressentimento. Ainda sou muito jovem para ficar para a titia, e encontrar um novo e eterno grande amor é um dos meus projetos mais importantes. É que lembrara de um amigo que se deu mal com uma garota por causa desse negócio de curso sobre vinhos.

Pois é, coitado! Ficou sem a garota pela qual ele suspirava há mais de um ano, logo no primeiro encontro. E não foi por falta de planejamento. Muito ao contrário. Vestiu a sua melhor roupa, foi apanhá-la em casa rigorosamente no horário combinado, esperou os tradicionais trinta e sete minutos extras, enquanto ela terminava de se vestir, e ao receber o amplamente conhecido pedido de desculpas feminino pelo atraso em se aprontar, respondeu com o não menos conhecido "qual nada, você está tão linda que esperaria por um século".
Escolhera o melhor lounge-bar da cidade, um lugar aprazível, onde havia um pianista jazzístico conhecido como Dedos de Seda, por sinal, o melhor intérprete da região da canção My Funny Valentine. Foi irrepreensível nos modos, abriu a porta do automóvel para a moça na chegada ao bar, além de puxar com delicadeza a cadeira, de modo que ela tomasse assento. Em seguida, pediu o melhor vinho da casa. E foi justo aí, nesse desventurado pedido, que o universo bloqueou qualquer tipo de conspiração a seu favor.
Ao trazer a garrafa, o garçom serviu aquela pequena dose para análise. De pronto, o meu amigo pôs em prática o aprendizado do tal curso. Dando continuidade ao rito iniciado pelo garçom, balançava suavemente o copo em movimentos giratórios, enfiando em seguida o nariz no seu interior. Não que esse meu amigo não tivesse boa aparência, porém exibia um nariz um tanto desproporcional, e nessa etapa ritualística acabou molhando a ponta da nariganga, o que resultou num discreto ar de reprovação da parte da moça. E ele seguiu em frente, girando o copo e enfiando o nariz, sucessivas vezes, enquanto explicava que este exame de olfato, graças à grande sensibilidade das mucosas olfativas escondidas na parte superior da cavidade nasal - e ainda cometia o delito de apontar para o lugar, é fundamental na análise sensorial do vinho. Você aí, leitora amiga, imagine-se sentada a meio metro de frente para um cara com o nariz inteiramente enterrado num copo, e que não desvia nem por um segundo os olhos de você, enquanto discorre sobre mucosas e cavidade nasal. Ora, não preciso nem dizer que a garota - a qual, infelizmente, não era médico-legista, sob a alegação de um enxaqueca súbita, cuidou mais que depressa de bater em retirada.

No curso, apreensivo por conta dessa lembrança desagradável, concluí que em nome do meu projeto romântico, o melhor mesmo era cair fora dali. Sob o pretexto de que esquecera o forno ligado, assando uma pizza, saí daquele lugar o mais rápido possível, para nunca mais voltar.
No caminho para casa, enquanto ouvia My Funny Valentine no CD Player do automóvel, enfim, respirei aliviado, à medida que a minha imaginação compunha de modo aleatório a imagem da minha futura alma gêmea. Ah, quem será ela? Alguém que nunca vi? Uma garota que encontraria ao acaso, no elevador? Ou, quem sabe, uma dessas que postam comentários no meu blog? Afinal, a internet deixou o mundo tão pequeno, não?
E dessa maneira, de alma leve e confiante no meu futuro romântico, olhei para o céu e sorri para uma estrela. Não sem antes apertar a tecla "voltar", do player, e ouvir outra vez My Funny Valentine, torcendo para que esta rainha do meu coração também gostasse desta canção dos deuses. ;o)
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Notas:
1) Este post é um remake de outro que escrevi na fase inicial do blog;

2) Se quiser ouvir My Funny Valentine em uma interpretação minha, ao violão acústico, vá ao post Coleções de Pickwick, mais abaixo, ou clique aqui.

PARA TODAS AS MULHERES

Em virtude da sua complexidade, leis e personalidades próprias, mais do que uma grande comunidade mundial, as mulheres constituem-se quase que um universo paralelo àquele em que vivemos.
No próximo 8 de Março, comemora-se o Dia Internacional da Mulher. Este post é a minha homenagem a todas elas.
Aposto que o prezado leitor, ou leitora, no seu dia-a-dia, ouve ao menos uma referência vaga à certas verdades que carecem de exatidão, isto é, não são assim tão verdadeiras. Quer um exemplo? Muito provavelmente você já ouviu alguém dizer ao despertar, depois de uma farra prodigiosa na noite anterior: "não bebo mais". Ou, a promessa: "no dia do aniversário da Tia Carlota, vou parar de fumar de uma vez por todas". Ou ainda a amplamente conhecida: "acho que já nos conhecemos de algum lugar", dita por um cara em uma tentativa de flerte com uma garota a qual ele jamais a viu sequer em vidas passadas. Ainda não se convenceu? Última, então: "quem? pão-duro, eu? Não, é que ganho pouco, tenho de economizar".

A mais notória dessas verdades duvidosas, cantada em verso e prosa desde tempos imemoriais, refere-se ao mito do homem conquistador. De certa maneira, esta falsa idéia sem correspondência na realidade, originou-se por uma concessão da alma feminina, este universo particular de sensibilidade à flor da pele, bom senso, poder, charme, emoções e resistência à dor física. À dor física? Isso mesmo, pois quem de nós, homens, resistiria sem sucumbir, as dores de um parto? Ou, tomaria cerveja com os amigos estando "naqueles dias"? Ou ainda se submeteria a uma depilação de pernas com cera quente sem gritar e espernear feito um louco?
Até mesmo o tradicional medo das mulheres por baratas é uma verdade não muito verdadeira. Na realidade, elas fingem que tem medo desses bichos só para fazerem um agrado aos homens. Ou você ainda não percebeu o ar triunfal de um homem quando mata uma barata daquelas bem grandes, a qual, supostamente assustava uma mulher?

Porém, muitos acostumaram-se a este mito, o de que existem homens conquistadores, donjuanescos, sedutores e latin lovers. Puro mito! Eu mesmo tenho por certo que a verdade é unilateral: os homens - todos eles - é que são conquistados.
As mulheres sempre tiveram pleno conhecimento da fronteira entre a fantasia e o mundo real, assim, na sua sabedoria e generosidade, e sobretudo por conhecerem muito bem as mentes masculinas, fazem de conta que são seduzidas.
Quando um homem "conquista" uma mulher, na realidade ele já foi previamente conquistado por esta. A maioria dos homens, é claro, não sabe nada sobre isso. E todo aquele jogo de sedução masculina, tal como, abrir a porta do carro para ela; puxar a cadeira no restaurante; mandar flores; chocolate; deixar um bilhetinho apaixonado no seu espelho depois de uma noite de amor, dentre outros rituais idílicos, não passam de tentativas de exibir pré-requisitos para mostrá-la de que valeu a pena ser o alvo da sua (dela) conquista. É como se o homem quisesse dizer bem alto: "Olha, eu estou aqui, montado num cavalo branco, vestido de príncipe e acredito em cinderelas!"
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Nota: Parte deste texto foi retirado de um post que escrevi nos primórdios deste blog.

FILOSOFIA DE ALMANAQUE

Prezado leitor, em sua opinião, qual o melhor atributo da natureza humana? Imagino que, agora, na passarela da sua mente há um desfile hesitante de expressões, tais como: "espere...", "deixa ver...", "humm...". Quanto a mim, considero a lealdade. Muito bem, sigam-me os bons! E o segundo melhor? Não hesitaria em responder: o bom humor. Com mil arcabuzes! O bom humor? Isso mesmo! Ora, direis, e o amor? O amor é o mais famoso dos sentimentos humanos, contudo, numa hierarquia de valores daquilo que é do próprio ser, em ordem decrescente, ele situa-se abaixo da lealdade, dado que não floresce sem esta última. Ao menos em condições de normalidade psíquica, porquanto fora deste estado, com frequência o amor é confundido com obsessão. Por analogia, o amor é de igual modo aquele ator coadjuvante que em determinado filme "roubou a cena" do protagonista, a lealdade.

Mas centremos no bom humor, caracterizemos melhor a importância desta disposição de espírito nas relações interpessoais, e, especialmente, em referência a nós mesmos. No passado acreditava-se que o organismo humano compunha-se de quatro tipos de matérias líquidas denominadas, cada uma delas, justamente de humor. Eram eles: o sangue, a fleuma, a bílis amarela e a bílis negra. Em muitos contextos, fleuma tem significado de serenidade, paz de espírito, tranqüilidade. Resulta óbvio, então, a aplicação da sentença lógica-doméstica: se o estado é de extremo mau humor, logo é incompatível com a disposição à serenidade. Por outro lado, muitas vezes o estado de serenidade é um reflexo natural do bom humor.

Certo dia, convidado por um amigo que fazia parte de um grupo de cinéfilos radicais, conheci uma garota num desses festivais de filmes alternativos que acontecem em cinematecas e cineclubes. Achei estranho uma mulher tão bonita exibir em todo o tempo uma expressão que lembrava o antigo ator Buster Keaton, também conhecido como o homem que nunca ri. A propósito, melhor abrir um parêntese aqui para um alerta importante: se o amigo leitor, ou leitora, anda a procura da sua alma gêmea, cinematecas e cineclubes não são os melhores lugares para se conhecer pessoas bem-humoradas. Você sabe, essa tribo anti-hollywoodiana de fanáticos por filmes paquistaneses, argentinos e iranianos, além de não se importarem com a climatização deficiente da sala, nem com a ausência de dolby surround 6.1 e tampouco com os estofados surrados, quase sempre são irritadiços por natureza. Logo, mal-humorados. Quer uma prova? Experimente dizer num ambiente destes que adora aquela gracinha de lábios tentadores, a Scarlett Johansson. Certamente terá como resposta um "humpft", seguido da expressão: "prefiro a Chloe Sevigny". E pior, durante todo o resto do tempo que permanecer no lugar, ao fitar alguém do mesmo grupo, este desviará o olhar, além de resmungar entre dentes: "humpft". É o mesmo que ser leproso na Idade Média ou, nos dias de hoje, acender um cigarro num meio hostil.
Ao perceber que a garota trazia um livro debaixo do braço, para derreter o gelo, indaguei: "quer que adivinhe o autor deste livro?". Ela rezingou um "humpft", fitando-me com altivez. Continuei: "vamos lá, dê uma pista, como por exemplo, o gênero literário do livro". Por alguns instantes ela substituiu o semblante mau humorado por um riso sardônico, e respondeu: "filosofia".

Suponho que a ingestão diária, por esta galera, de alface, brócolos, aipo e rúcula, em detrimento de um suculento bife, desequilibra os humores. Portanto, nestes ambientes de maioria pró-vegetariana e de intolerância máxima, é preciso ser cuidadoso nas respostas.
E bem ali, no olho do furacão de um grupo de cinéfilos xiitas e de vertentes variadas, carecia da habilidade de um chanceler doméstico, pois alguns deles eram fãs da trindade Fidel, Evo e Chavez - por sinal, os mais radicais destes clãs; outros, membros do Greenpeace, consequentemente, com pré-disposição incessante a um ataque de nervos, bastando para ativá-lo, a simples menção da notícia do encalhe de uma baleia em uma praia qualquer. Acrescente, ainda, aqueles que falavam de bruxas e de duendes como se estes seres féericos fossem bombeiros ou guardas de trânsito, ou seja, pessoas comuns, do dia-a-dia. Também havia praticantes de turismo ecológico, peregrinos do Caminho de Santiago, e adeptos da quiroprática.
Porém, confiante no meu bom humor, busquei com toda a minúcia um autor que se encaixasse na preferência da garota e da sua turma. Gente deste perfil, imaginei, por certo são leitores de filosofia
underground. Assim, titubeei entre Hebert Marcuse, uma espécie de combustível do revolucionário ano de 1968; e Sartre, o marido da Simone de Beauvoir. Conjeturei que Marcuse fazia mais o gênero "fora da mídia". E escolhi este filósofo para a minha resposta.

Com um "V" de vendeta no olhar, a moça estampou a capa do livro bem na minha cara. Para a minha surpresa o autor era o filósofo Arthur Schopenhauer. Com mil bacamartes! Por acaso teria sido preconceituoso nas minhas conjeturas acerca daquele grupo? Pois Schopenhauer, apesar de filósofo pessimista em sua visão do mundo, pertence a uma escola tradicional. Neste caso, quais razões motivariam a moça em questão àquele temperamento de rinoceronte? Pensei, pensei, e ao relancear outra vez as vistas na capa do livro, enfim, meus olhos, atônitos, vislumbraram a verdade. Aquele livro de aparência inocente trazia um princípio poderoso, capaz de extirpar, dentre outras coisas, o mais importante ingrediente do carisma, o bom humor. Senão, confira você mesmo. O título do livro era Sobre A Quádrupla Raiz Do Princípio Da Razão Suficiente. Se em matemática pura, as raízes cúbicas e quadradas já são motores possíveis de levarem muitos à enxaqueca, imagine uma raiz quádrupla, e ainda por cima aplicada à filosofia. É quase certo supor que a leitura de tal livro representa um aprendizado de alto nível para candidatos a Urtigão, aquele personagem eremita e mal-humorado de Disney. Por conseguinte, portadores de níveis de tolerância geral análogo a zero.

O bom humor é o mais camaleônico dos estados de espírito, pois que harmoniza com quase todos os outros sentimentos próprios da
natureza humana, potencializando-os para melhor. Se associado à tríade otimismo, vida espartana e cartesianismo doméstico, é o nirvana da vida prática, sem complicações. E o melhor dos seus efeitos é ser feliz. Avalio por mim, porquanto desde tempos imemoráveis jamais fiz uso da pergunta: "alguém aí tem um Valium?" ;o)

Sobre o novo layout
Comecei a programar e a desenhar este template há uns seis meses, aos poucos, em meus momentos de folga, por sinal, raros nos últimos tempos. Aproveitei o feriado do Carnaval para concluí-lo. Espero que gostem.
Testei o template nos navegadores Internet Explorer, SeaMonkey e, é claro, no Firefox - o preferido de onze entre dez geeks. Não detectei nenhum bug, todavia, se algum amigo visitante identificar algum, agradeceria se me informasse.
A propósito, este site é melhor visto no Firefox. ;)

DANÇA MEDIEVAL


Estava com saudades da blogosfera, dos amigos e dos visitantes que chegam ao condado.
Bem, se você ainda tem disposição para ouvir as minhas interpretações ao violão acústico, no clipe abaixo apresento mais duas delas, um Trotto e um Saltarello. São canções medievais, de autores desconhecidos, apropriadas para danças alegres e de movimentos rápidos.
Na segunda melodia, acrescentei uma linha harmônica em piano, coisa simples, de músico doméstico, além de algum efeito digital durante a edição e mixagem com o objetivo do timbre do piano assemelhar-se ao de um cravo.
Dancem e divirtam-se, o hidromel é por conta do condado. ;o)


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Nota:
Postei estas interpretações há alguns meses no blog O Bar do Ossian, o qual, sou colaborador.

UIVANDO PARA A LUA - Parte 5 (Final)


Retirado para futura publicação em livro.


UIVANDO PARA A LUA - Parte 4



Retirado para futura publicação em livro.

UIVANDO PARA A LUA - Parte 3



Retirado para futura publicação em livro.

UIVANDO PARA A LUA - Parte 2


Retirado para futura publicação em livro.

UIVANDO PARA A LUA - Parte 1



Retirado para futura publicação em livro.

NA BALADA

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"Uma lua me ilumina / Com a clareza e o brilho do cristal..."(1)

Gosto tanto de danceterias que se pudesse teria uma luz estroboscópica em casa. Verdade! Luz estroboscópica é aquela luz de boate que dá a sensação de dançarmos em câmara lenta.
Ela emite pulsos luminosos em intervalos de tempo regulares, isto é, acende e apaga de forma sincronizada. Este efeito é um fenômeno da Física conhecido como Efeito Doppler, por sinal, um dos coadjuvantes empregado por esta ciência para comprovar a expansão do universo. A propósito, já observaram que, sob o efeito destas luzes, até mesmo dançarinos(as) desengonçados(as) dão a sensação de verdadeiros Nureyevs?
Percebam, também, que somente em um blog sobre nada é possível associar Física e boemia com toda esta naturalidade. Tudo é relativo, depende dos referenciais.

Mas retornemos às boates. Ah! As boates. É uma das maiores invenções da humanidade direcionada para entretenimento, flertes e romances.
Desde a mais tenra idade - e até hoje, as danceterias são uma espécie de extensão da minha casa. Há alguns anos, no Hotel Meridien, aqui em Salvador, havia uma danceteria chamada Le Zodiac. No dia seguinte, após uma noitada neste lugar, se encontrasse um amigo e este me perguntasse como fora a minha noite, a resposta era: "Beleza! Saí na macarronada". É que a Le Zodiac servia no fim do "expediente", de cortesia, uma macarronada. Portanto, a expressão significava que nenhum minuto de saudável diversão fora desperdiçado. Mas a rede Meridien vendeu este hotel ao grupo português Pestana, e, infelizmente, os caras fecharam a boate. Ei, vocês! Amigos portugueses que me lêem, por acaso não gostam de dançar? Se alguém aí conhece este tal de senhor Pestana, por gentileza, avise-lhe para reabrir a danceteria. Não nos importamos se ele substituir a macarronada por pasteizinhos de Belém.

Não sei quanto a vocês, mas quanto a mim, tenho absoluta convicção de que as boates foram concebidas para o flerte e o romance. E dançar, é óbvio! Senão, vejamos: primeiro, o local das mesas é meio-escurinho, o que as tornam mais aconchegantes; segundo, as mesas são pequenas, detalhe que aproxima mais as pessoas; e, finalmente, a seqüência das músicas é programada para estimular romances. Das onze horas até uma da madrugada, as canções têm ritmo acelerado, toca-se estilos variados, tais como dance, club, techno, trance, hip-hop, house, techno-funk, com a predominância de um ou de outro, de acordo a casa. É a fase da euforia, pura diversão. Aqui, vezes estabelece-se a Síndrome de Barishnikov, um mito improcedente, o de que é preciso ser exímio dançarino para se divertir e não dar vexame. Pura lenda! Numa boate, ninguém repara na sua coreografia. Se souber executar aquele passo fantástico - o moon walker - criado pelo Michael Jackson para o filme Thriller, ótimo! Mas se não souber, com movimentos minimalísticos também se divertirá do mesmo jeito. E se você é um daqueles que jamais encarou a pista de uma danceteria por conta destes receios, não sabe o que perdeu. Na verdade, não é preciso ser antropólogo para poder comprovar que o ato de dançar é uma das melhores práticas sociais para aproximar humanos.
Bem, continuemos com a programação das sequências musicais. Entre uma e duas horas da madrugada, é a hora da saudade, de flashbacks imemoriais e das canções lentas, românticas. Ótimas para se dançar próximo da garota; de rosto colado; de dizer e de ouvir palavras doces sussurradas ao ouvido; e de beijo na boca.

Se chegar acompanhado ou descolado, não faz muita diferença, pois o ambiente da danceteria é generoso, conspirador; raramente se permanece sozinho(a) por muito tempo em uma delas.
Um dado estatístico curioso é que noventa e nove por cento das boates de todo o mundo, sempre tem um cara que chega acompanhado da namorada, ou da mulher, além de mais quatro ou cinco garotas. Eu e os meus amigos, nos tempos de faculdade, batizávamos caras deste tipo com o nome de Queiroz, aquele que traz mulheres para nós.
Para um single, a etapa mais difícil ainda é derreter o gelo. Não me refiro ao da bebida, porém, ao iceberg existente entre o descolado e a ilustre desconhecida que balançou o seu coração. Mas o universo das danceterias - de igual modo ao nosso, também é um processo em expansão, rico em possibilidades. Associe um mínimo de imaginação a uma brincadeira pueril, e o que parecia impossível concilia-se de maneira natural. Por exemplo, em uma noite chuvosa, você pode pegar um daqueles canudinhos em forma de pequeno guarda-chuva que acompanham certos tipos de coquetel, e pedir ao garçom para entregar àquela moça sentada à mesa do outro lado da pista, acompanhado de um bilhetinho escrito num guardanapo: "Pra você. Lamentaria vê-la ensopar-se à saída da boate. Embora, aposte que ficaria linda de cabelos molhados". No mínimo, ganha-se o mais cúmplice dos sorrisos.

Aos noventa anos ainda serei um freqüentador de boates. E, se necessário, levo um geriatra para me assessorar. Até imagino a cena. No american bar, me aproximo de uma garota: "Linda moçoila! Posso oferecê-la uma vodca com Red Bull?" Lamentavelmente, nessa idade, a audição não é o melhor dos sentidos. Com a música a todo volume, não ouço a resposta da garota. Resta-me apelar para a velha interjeição: "Hein?" Raios! Parece que ela repetiu o que disse anteriormente, mas continuo sem ouvir nada. Com a mão, em concha, no ouvido, digo de novo: "Hein?" E, finalmente, a garota... como direi... potencializa a intensidade da sua fala: "A sua bengala está bem em cima do meu pé!"
Raios duplos! Um pequeno incidente. Mas o importante é jamais perder a essência. ;o)
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Notas:
(1)
Michel e Gilson Mendonça, na canção Descobridor dos Sete Mares;
No Brasil, ir para a balada, é o mesmo que ir para a noite, se divertir.

COLEÇÕES DE PICKWICK

Mais uma semana de muito corre-corre e sem tempo de escrever. Portanto, faço uso mais uma vez do velho recurso de postar três interpretações minhas, ao violão acústico.
Não sejam muito exigentes, pois sou apenas um músico doméstico. ;o)


Take Five
(autor: Paul Desmond)

Composta em 1959, dispensa comentários, é um verdadeiro ícone do jazz clássico.

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My Funny Valentine

(autores: Richard Rodgers e Lorenz Hart)

Composição de 1937, é simplesmente a melhor balada jazzística de todos os tempos.

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Romance de Amor
(autores: Antonio Rovira e Vicente Gomez)

Se você está apaixonado(a), decerto vai gostar desta.

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Nota:
Se quiser ouvir minhas composições jazzísticas, visite o Deux Chevaux Jazz Club. Clique na imagem da sidebar, à direita. O hidromel é por conta da casa.

Os Natais de Pickwick - Parte 2 (Final)

Segunda feira, 29 de Setembro de 2008.

Ato contínuo à notícia da incomum eleição, formou-se uma eclética comissão - por sinal, composta por este vosso humilde escriba; além do meu irmão; os primos Carlinhos Formigão e Gute; e os tios Janjão e Vavá, com o propósito de escolher os vitoriosos do legendário certame.
Com base em suas proezas de amante latino - convém ressaltar, apregoadas por ele próprio, mas, sobretudo, pela sua proximidade das oitenta primaveras, por unanimidade a comissão elegeu o querido tio Arthurzinho para presidi-la.

Pela preservação da moral e dos bons costumes, a comissão adotou como condição sine qua non que somente os maiores de dezoito anos poderiam ser votados, além disso, mesmo aqueles com idade superior à permitida pelo regulamento e ainda que exibissem inqüestionável tendência à modalidade FR, contudo, sem a prática, também não poderiam concorrer. De acordo esta última cláusula, eliminou-se previamente da competição as primas SK1, SK2 e EA , as quais, à época, apesar do reconhecido esforço de cada uma delas em sair do estado de experiência zero, continuavam mais incólumes que sacerdotisas vestais.
Outrossim, restava ainda à comissão definir a mais difícil das cláusulas: quais os parâmetros para avaliar performances caracterizadas essencialmente pela relatividade, sutileza e subjetividade? Buscamos a solução na mais apaixonante das ciências, a Física. De igual modo esta ciência usa os conhecidos Referencial de Galileu, Referencial Inercial, Referencial Acelerado, dentre outros, nós, da comissão, utilizaríamos o Referencial Acrísio.

Seu Acrísio era um homenzinho linheiro, metódico, que expunha a bondade à flor do rosto. De caráter impagável, usuário contumaz de trajes de passeio completo, confeccionados com tecidos de cashmere inglesa - sempre nos tons azul-marinho ou cinza escuro, jamais separava-se de um guarda-chuva de cabo de peroba avermelhada, incrustado com adornos de madrepérola, o qual, de tão bem enrolado, assemelhava-se a uma elegante bengala. Funcionário público aposentado e católico fervoroso, com a regularidade de um relógio suíço, não havia um Domingo em que não cumprisse os sacramentos da confissão e da eucaristia na Igreja de Santa Maria Goretti, além de contribuir com as obras de caridade da paróquia.
Vizinho de porta de tio Arthurzinho, Seu Acrísio, apesar de não ser parente consangüíneo, além de seu amigo íntimo e confidente, tinha o status de membro da família. Pessoa querida por todos aqueles que o conheciam, ninguém em sã consciência jamais poderia negar à figura de Seu Acrísio uma centena que fosse de atributos positivos. Exceto, o de latin lover. Infelizmente, nesta modalidade sensual, o mau desempenho de Seu Acrísio corria célere em todo o seu ciclo de amizades. Fundamentalmente centrado na escassez e na ortodoxia de variações, o cenário do filme erótico protagonizado por Seu Acrísio e senhora, primavam pela escuridão absoluta, silêncio total, e rigorosamente sob o cobertor. Certa ocasião, ele confidenciou a tio Arthurzinho que, não obstante mais de meio século de vida a dois, em sinal de respeito, jamais olhara... bem... como direi... as partes de sua esposa.

Assim, a comissão zelosa de que a eleição se procedesse com a maior lisura possível, optou pela utilização deste consagrado método científico, o uso de um referencial, adotando o desempenho de Seu Acrísio como medida na avaliação das performances em julgamento. Portanto, naquele instante, por definição, considerou-se o Referencial Acrisiano como o mais baixo possível na escala mundial. Em resumo, quanto mais o candidato se aproximasse do desempenho acrisiano, "melhor" seria a sua classificação.

É certo que não se pode agradar a todos em uma eleição, seja ela de qualquer natureza, política, ou, até um singelo concurso de beleza: "o quê? Aquela dentuça, rainha da celulite, foi a vencedora?" Há sempre os espíritos de porco de plantão que jamais se conformam com as deliberações. No entanto, o número de protestos após a divulgação do resultado foram poucos.
Subiram ao podium, em primeiro lugar, o M., e, por uma feliz coincidência, como se o universo urdisse uma conspiração, a segunda posição foi justamente da sua esposa, a minha prima L., estabelecendo aí, talvez, um novo conceito de casamento perfeito, porquanto esta união constitui uma das mais sólidas e felizes da nossa constelação familiar. Em terceiro lugar, o meu tio J., pessoa calada, muito calma, e adepto do estilo de vida contemplativo. Fui o único a votar contra esta indicação, pois o homem tem dez filhos. Contudo, acredito que o seu apelido, Mansidão, influenciou no processo decisório dos demais membros da comissão. ;o)
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Novo post: Segunda feira, 13 de Outubro de 2008

Os Natais de Pickwick - Parte 1

Sexta feira, 19 de Setembro de 2008.

Desde que me entendo por gente que a maior e a mais importante das reuniões da minha família ocorre no Natal. Irmanados pelo espírito natalino os membros dos clãs Xavier, Kruschewsky, Amorim e Ninck, concentram-se em um determinado local – usualmente a casa de um membro da família, ou, vezes em um clube alugado especialmente para esta finalidade, nas ocasiões em que o número de participantes extrapolam as limitações físicas de uma edificação residencial. Nosso recorde é de 152 pessoas, todos com ligações familiares entre si.
É um festejo soberbo, farto em bebidas, comilanças, alegria, e, sobretudo, o desfile de um gradiente de gerações: tataranetos, bisnetos, netos, avôs, sobrinhos, tios, primos, agregados, contra-parentes, pais e filhos. Típico das famílias que se reúnem com relativa freqüência, a circunstância é marcada por inesquecíveis e inevitáveis clichês. A trilha sonora, por exemplo, isto é, as canções natalinas que desempenham o papel de música de fundo, ano após ano, é sempre originária das mesmas fontes: dois jurássicos CDs, um deles intitulado A Harpa de Natal; outro, o manjado Dean Martin Christmas, ambos tocados até a exaustão durante todo o evento.

Outra peculiaridade é que, à exceção dos adolescentes e das crianças, durante certo período do acontecimento os homens reúnem-se em um determinado canto, e as mulheres, noutro. Entre as mulheres, especialmente aquelas descendentes dos troncos Kruschewsky e Amorim, segundo a maioria masculina da família, o tema predileto para as suas conversas nestas ocasiões é o queixume. Há um consenso - entre os homens - de que elas se queixam de qualquer coisa: desde enxaquecas com arquitetura das mais diversificadas, até lamúrias por causa de uma dor nas costas, uma pontada no osso da miquila, uma sovelada no osso do mucumbu, uma gastura no osso do uropígio, além de - é claro, variações em torno do surrado assunto "homem é tudo a mesma coisa".
Como nos localizamos no hemisfério sul, portanto, abaixo da linha do equador, é inevitável que no clube masculino, por sua vez, assunto vai, assunto vem, a ladainha quase sempre é a mesma: quixotadas acerca das suas performances de latin lovers.

Também, é comum em alguns desses encontros natalinos familiares a prática de um certame top ten, injustamente temido por alguns membros da família, entretanto, objeto de sadia diversão da maioria, desde que seus nomes não estejam inclusos no resultado da disputa. É algo como uma inocente eleição dos "dez mais alguma coisa da família". Desse modo, realizou-se com sucesso a indicação dos dez mais unhas-de-fome da família; os dez mais feios; as dez maiores orelhas, dentre outras modalidades.

Certa ocasião - sempre com o objetivo de tornar ainda mais alegre e descontraído o espírito do Natal, resolve-se promover uma inusitada eleição: os dez mais ruins de cama da família. Na realidade, a terminologia empregada na época não foi bem essa, porém, ante o receio de macular a sensibilidade de possíveis leitores pios, é prudente não matizar o relato com o uso de termos que poderiam ser interpretados como não-convenientes a este blog. Por outro lado, a omissão da real expressão provoca a desagradável sensação de trabalho por fazer, algo capenga, ou serviço incompleto. Assim, apesar do temor da crítica à leitura por olhos mais severos, enfim, pelo bem da verdade, o episódio na realidade tornou-se conhecido como a eleição dos dez mais foda-ruins da família. Por um mínimo de elegância, adiante, sempre que se fizer referencia a esta modalidade, será adotada a abreviatura FR.
Superado o alvoroço dos primeiros instantes após o anúncio da famigerada eleição, o que era absolutamente natural em vista do tema polemico, além da curiosidade geral despertada por tal concurso, muitos dos presentes temendo ver os seus nomes inseridos na lista, iniciaram de pronto uma intensa atividade de boca de urna às avessas, ou seja, trabalhavam com afinco para não serem votados de jeito nenhum.

Continua na Parte 2. Até lá! E, em certas horas, evitem dizer coisas, tais como: "foi bom pra você?" ;o)
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Esclarecimento aos amigos portugueses:
No Brasil, fazer "boca de urna" é o ato de um candidato tentar aliciar o eleitor na hora da votação.
No contexto do post, dá-se justo o contrário, isto é, muitos candidatos tentavam convencer eleitores a não votarem neles.