Às vezes, desconfio de que o colégio ao qual frequentei durante parte da infância e por toda a adolescência, dissimulava em sua arquitetura austera e quase secular, uma Gaiola de Faraday
1. A despeito da sua excelência no ensino, verdadeiro referencial para a região, ali, tudo se passava mais ou menos como no tempo do meu pai. Os professores, todos eles, ministravam as aulas vestidos de terno e gravata, à exceção do professor Agnísio, de saudosa memória, que ainda acrescentava a este traje convencional, um colete, de onde pendia o cordão de ouro de um legítimo, raro, e antigo
Cyma de bolso.
Os livros adotados também eram parte essencial deste universo de ecos do passado, espessos e volumosos, qualificavam-se nestas categorias como verdadeiros páreos para
Memórias Da Segunda Guerra Mundial, de Churchill. Tive sorte em não adquirir uma escoliose, especialmente nos três últimos anos correspondentes ao curso médio, pois carregava dia após dia, de casa para o colégio e vice-versa, livros de Física, Química e Matemática, de autoria dos Irmãos Maristas, Valdemar Saffioti e Jairo Bezerra, respectivamente. Sobre este último, além das características "padronizadas" dos demais, ou seja, espessos e volumosos, era impresso em letras miúdas e quase não havia ilustrações. Ao adquiri-lo na livraria, apesar de novo, tinha a sensação de que as suas páginas já vinham por antecipação, amareladas pelo tempo. Além disso, acredite se quiser, como complemento deste livro, ainda utilizávamos outro, a Tábua De Logaritmos, usada para calcular o logaritmo de um número em determinada base, uma criação do ano de 1614, por um matemático chamado Napier.
Morríamos de inveja dos livros de matemática, fininhos e fartos de ilustrações coloridas, dos amigos que estudavam em outros colégios. Até que um dia criamos coragem, formamos uma comissão e nos dirigimos ao mestre da disciplina: "professor, e sobre este negócio de Teoria dos Conjuntos que os alunos de outros colégios estudam? Chamam de matemática moderna. Nós, também, não vamos ver isso?" Sem mudar um és-não-és da sua fisionomia zen, ele nos respondeu: "qual nada, meus filhos! Em qualquer tempo a matemática é a mesma, dois mais dois sempre serão quatro". Sem argumentos, voltamos às páginas de Jairo Bezerra e à velha Tábua de Logaritmos.
Fui aluno deste professor nas três séries do curso colegial, portanto, tenho mais horas de demonstração de teoremas que urubu de voo. Para nós, alunos daquele lugar, não bastava saber que, num triângulo retângulo, o quadrado da hipotenusa é igual a soma dos quadrados dos catetos. Tínhamos que provar isso, analiticamente. E se não quiséssemos perder meio ponto num determinado quesito de algum exame, ao fim da demonstração de qualquer teorema ou corolário, éramos obrigados a escrever: "c.q.d.", iniciais de "como queríamos demonstrar". Assim mesmo, no plural majestático, fazendo uso da palavra "queríamos" em vez de "queria".
Se chegou até este ponto da leitura, decerto não se surpreenderá em saber da existência de censores no colégio. Também chamado de bedel - conforme a região do país - havia um para cada sala, responsável pela vigilância e manutenção da ordem nos intervalos entre aulas, especialmente na hora do recreio. Todos eram mulheres, e em sua maioria, quase velhinhas. Apesar de o apelidarmos com alcunhas vezes nada lisonjeiras, além de outras brincadeiras de gosto duvidoso, em todos estes anos, jamais soube da circunstância de que algumas destas senhoras delatassem para a diretoria algum aluno surpreendido em falta. Uma delas, chamada Dona Georgina, deu provas de possuir coração de ferro e resistência excepcional a sustos, à vista de muitas vezes aproximarmos-nos dela, por trás, silenciosamente, e numa corruptela do primeiro verso da famosa balada de Ray Charles, cantarmos, aos gritos, próximos ao seu pé-de-ouvido:
"Georgina on my mind...".Nesse tempo, tive as primeiras sensações de que as mulheres, de fato, deveriam governar o mundo, pois nunca presenciei e jamais soube de nenhuma ocorrência na qual alguma menina do colégio fizesse tais brincadeiras com aquelas simpáticas senhoras. Muito ao contrário, além de nos criticarem duramente por tais procedimentos, elas confortavam as velhinhas, e ainda ameaçavam delatar-nos para a diretora, a legendária Dona Lindaura.
De modo distinto dos alunos da maioria das outras escolas, estudávamos análise léxica e análise sintática, logo, em nome da boa linguagem, palavrões eram proibidos no interior da escola. O aluno surpreendido proferindo algum deles, era suspenso por três dias e só retornava acompanhado de pai ou mãe. Fazer tal comunicação aos pais era uma situação de perigo real e extremo, o "sentenciado" corria o risco de conversar, no céu, com John Lennon. Mas, nossos volumosos e espessos livros didáticos não serviam apenas para aprendermos que
F = mg, nos auxiliavam também na criação de certos códigos. Por exemplo, em atitudes de raiva, em vez de proferirmos aquela famosa tríade de palavras cuja primeira começa com "p" e a última também, dizíamos: "butadieno!"; ou, "tetra-penteno!"; ou ainda, "Sá de Miranda!". Suponho que, lá em cima, o poeta nos perdoava, enfim, ele também foi jovem um dia. Em outra situação, se quiséssemos mandar certo colega àquele lugar, buscávamos ajuda na Biologia, usávamos a seguinte cifra, dita num tom de voz bem forte: "vacúolo...", aí, dávamos uma pequena pausa, e com voz fraca, complementávamos: "...endoplasmático!" Engenhoso, não?
Muito mais do que conhecimentos do tipo
sen(a + b) = sen a.cos b + sen b.cos a, tínhamos, também, numerosas lições de vida ali. E a melhor delas era o eterno aprendizado no relacionamento com garotas. De flertes a amores platônicos, afinal, um dia, todos nós, casaríamos e teríamos filhos. Nesta questão, nossos livros espessos e volumosos, aparentemente, tinham pouco a contribuir.
Dessa maneira, certo dia surpreendi-me sonhando acordado e ouvindo baladas românticas - escondido dos meus amigos do
hard rock e do
heavy metal, é claro - por causa de uma garota da minha classe, de nome E.S. Naquele tempo, tinha surtos de timidez, então, tornara-se uma questão existencial para mim, a de como aproximar-se de uma garota bonita. Aproximar-se até que era fácil, difícil era convencê-la a dizer "sim" às minhas intenções. No parágrafo anterior escrevi que
aparentemente os livros espessos e volumosos não tinham nenhuma serventia em equacionarem romances de amor. Porém, as aparências enganam, descobri que aqueles queridos e robustos repositórios de saber também poderiam acumpliciar-se às coisas do coração.
Não demorou muito, e certa vez, após soar a campainha que sinalizava o final da última aula, ofereci-me para carregar os livros de E.S. Resultava óbvio que na hipótese da aceitação daquele oferecimento, era tácito que o acompanharia até a sua casa. Ela fitou-me por alguns instantes com um olhar babilônio de surpresa. Minhas pernas, absolutamente fora do controle cerebral, tremiam à revelia, no tempo em que aguardava a resposta. Não sei se por virtude de algum interesse romântico, ou por comodidade em aliviar-se daquela carga digna do gigante mitológico Atlas, ela aceitou a proposta. Assim, mais carregado do que mula de garimpeiro montanhês - pois além dos meus, carregava também os livros dela - quase todos os dias o acompanhava até a sua moradia. De início, por conta da timidez, não conversávamos muito durante o trajeto, porém, satisfazia-me caminhar ao seu lado e lançar-lhe olhares de soslaio. Com o passar do tempo, sentia-me mais confortável e menos tenso em sua companhia, e até ousava, na linguagem dos tímidos, fazer insinuações à sua beleza delicada, demais outros engraçamentos singelos. Quase três meses depois, pela primeira vez adentrei o portão do jardim que frenteava a sua casa, e sob a cobertura da varanda que antecedia a entrada da residência, confessei a atração. Ela não demonstrou no semblante nenhuma surpresa, parecia que esperava que dissesse aquilo desde que Noé dera início à construção da arca anti-diluviana. Sorriu, olhou para o interior da casa com o fim de certificar-se de que ninguém nos observava, e trocamos o nosso primeiro beijo. Tímido, como deve ser o primeiro beijo dos melhores romances. Em seguida, entrou em casa, fechando a porta bem devagar, por etapas, sem que desviássemos os nossos olhares sequer por um segundo.
Saí dali nas nuvens. Dei alguns passos, iniciando o caminho de volta, quando avistei, adiante, uma lata vazia de Neston no meio da rua. Talvez por conta do calor do sol a prumo, ou pela falta de algum confidente o qual poderia compartilhar o meu estado de euforia, mirei as vistas na lata, acelerei a frequência das passadas, marchando em sua direção. Ao aproximar-me desta, apliquei-lhe um potente chute. A lata ganhou os céus tal como um
Demoiselle movido por um combustível dito
passion, percorrendo uma trajetória parabólica, indo cair muitos metros mais a frente. Para a minha sorte, não atingiu a cabeça de nenhum transeunte. E naquele instante, me pareceu verdadeiro o entressonho de que a trajetória de latas voadoras conspira a favor daqueles possuidores de corações pertinazes e apaixonados.
Mas, nem tudo foi um jardim de flores nesses quase três meses. Ainda no nascedouro, a notícia da minha atividade de carregador de livros de garota bonita correu pelo colégio feito rastilho de pólvora. E em tempo célere, fui objeto de ataques sucessivos de zombarias dos colegas. Numa prova de que as aulas da saudosa professora de português Teresa Ribeiro surtiam efeito, descortinaram uma coleção de sinônimos para qualificar-me: adulador, bajulador, puxa-saco, come-espiga, cortesão, quebra-faca, enxuga-gelo, escova-botas, dentre outros menos simpáticos. Mas não me importava, aquilo fazia parte do nosso código de honra zombeteiro, tinha força de lei. Além do mais, nunca desperdicei oportunidades de exercitar a minha paciência, tanto é que jamais deixei de abrir a porta de casa para atender a testemunhas de Jeová e de igual modo não declino em ouvir preceitos daquele pessoal da Seicho-No-Ie em aeroportos.
Nessa ocasião, outro detalhe fortificou ainda mais as minhas conjeturas de que as mulheres deveriam governar o mundo. Nenhuma das garotas tomou parte nestas investidas de gracejos contra mim, antes pelo contrário, muitas delas lançavam-me olhares maliciosos e sorrisos sutis, como se intencionassem transmitir um oportuno recado: "está no rumo certo".
E é claro que, um dia após o voo da lata, ao circular de mãos dadas com E.S. pelas dependências do colégio, as zombarias cessaram por completo, tornando-as meras reminiscências da força da perseverança.
Disce pati, si vincere voles.
E SE QUISER SABER MAIS sobre a Gaiola de Faraday, inclusive da sua relação com viagens no espaço-tempo, leia um bom livro de Física, de preferência, é óbvio, dos Irmãos Maristas. No mínimo, vai compreender melhor os fenômenos daquela misteriosa ilha do seriado Lost. ;o)
Nota:
1) Gaiola de Faraday. É uma blindagem eletrostática, isto é, uma superfície condutora que envolve determinada região do espaço, a qual, sob certas circunstâncias, é capaz de impedir a entrada de energias produzidas por campos elétricos e/ou eletromagnéticos. Os efeitos no interior do condutor se anulam, resultando num campo elétrico nulo.
O nome é originário de um experimento feito pelo físico inglês Michael Faraday, em 1836, para provar os efeitos desta blindagem. Um exemplo prático desta experiência é a ocorrência de tempestades de raios que atingem um avião, sem afetar os passageiros. A estrutura metálica da aeronave (o condutor) recebe a carga elétrica e a distribui de forma homogênea, de modo semelhante à Gaiola de Faraday.