THE KNACK... AND HOW TO GET IT

Afinal, será possível tornar-se um especialista em sedução, do mesmo modo que um expert em engenharia mecânica, por exemplo? Circula na TV, um comercial de um serviço por telefone — pago, é claro — que promete transformar qualquer mortal em sedutor irresistível. Ah, esse Graham Bell! Basta digitar alguns números, ouvir uma gravação, e, voilà: bem vindo à terra do fascínio e do magnetismo. É sabido de que no passado, corações femininos derretaram-se à singelas declamações de versos de Ovídio, Rilke, Vinícius de Morais e até mesmo do livro Cântico dos Cânticos, de autoria atribuída ao Rei Salomão e inserido no Antigo Testamento. Salomão, como sabem, é aquele rei bíblico que passou a perna no irmão mais velho, usurpando-lhe o trono quando da ocasião da morte do seu pai, o Rei Davi. Por sinal, Davi — célebre por detonar o gigante Golias — tinha um método radical para seduzir belas garotas. Certa ocasião, já enfadado do seu harém de mais de cem mulheres, enviou para uma frente de batalha suicida o seu amigo e melhor general, Urias, somente para usurpar-lhe a esposa, a charmosa Betsabá. Mas esses caras de antigamente eram assim mesmo, serviam-se dos métodos mais inusitados para arranjarem namoradas. O próprio Júpiter, il cappo di tutti i cappi dentre as divindades de Roma, certa feita, para seduzir uma garota de nome Leda, transformou-se em Cisne. De outra vez, querendo levar para a cama outra moça chamada Ganimedes, metamorfoseou-se em águia. E, por um romance passageiro com a linda Dânae, fez-se em chuva de ouro.

Por Júpiter! Acaso a sinceridade e a velha fórmula de "confessar a atração" já não são suficientes para qualquer um envolver-se em doces romances? Infelizmente, para muitos, isso é coisa do tempo de Matusalém, e, por estas razões, suponho que este serviço por telefone mencionado acima será um sucesso. Pelo menos para a empresa que o promove.
Se sou daqueles que não acreditam na possibilidade de se desenvolver técnicas de conquistas idílicas, todavia, é fato a existência de caras... como direi?... ah, meio desajeitados com mulheres. E um desses era o amigo de infância Zé M. Certa ocasião, estávamos no Clube Social de Ilhéus, no baile anual d'As Dez Mais Da Sociedade Ilheense, promovido por um colunista social da região, conhecido pelo curioso codinome de Joseph Marie. O interessante deste baile é que, ano após ano, entre as eleitas, oito destas dez senhoras ilustres eram sempre as mesmas, portanto, a disputa, na verdade, ocorria apenas entre duas das mulheres da lista, o que me levava a imaginar que estas duas inclusões no podium da high society das terras da Gabriela eram disputadas a tapa nos bastidores do evento. Ou melhor, a cifrões, provavelmente originários dos altos lucros obtidos — à época — com o cultivo do cacau. Porém, eu e os meus amigos não estávamos nem aí para tal lista, o nosso objetivo — como modernos cavaleiros andantes — era a busca por romances e aventuras. Para tal fim, nos vestíamos com o nosso melhor traje. Tenho certeza de que se o meu único terno para ocasiões especiais, de corte slim fit, tecido cinza-escuro com riscas de giz, seis botões e lapelas largas, se aventurasse sem o seu dono por aqueles ambientes do clube, percorreria todos eles sem nenhuma dificuldade.

O baile seguia em seu estado default, quando lá pelas tantas, no primeiro intervalo das danças, a galera jovem — geralmente desprovida de dinheiro suficiente para comprar uma mesa — aglomerava-se em torno do bar do clube. Foi aí, nessa circunstância, que o amigo Zé M. ouviu o doce badalejar dos sinos da paixão. Bem ali, próxima uns cinco metros, encostada no balcão, uma garota tomava um suco de frutas. Eufórico, ele segurou o meu braço, apertando-o com a força de dez ursos, enquanto fazia movimentos de cabeça mostrando-me a menina responsável pelo repicar dos sinos passionais. Desorientado, solicitou a minha assistência acerca da maneira mais apropriada para uma abordagem de sucesso. Naquele tempo, aos dezessete anos, ainda padecia dos resquícios de uma timidez renitente, por conseguinte, não era o melhor conselheiro para assuntos desse tipo. Porém, por uma questão de princípios, urgia prestar socorro ao amigo antes que alguém mais ousado se aproximasse da moça. Desse modo, o aconselhei a fazer uma brincadeira singela ou dizer algo engraçado para ela, com a finalidade de derreter o gelo. Enfim, as mulheres — especialmente as mais inteligentes — quase sempre gostam de caras engraçados. Se ela sorri — continuei — é uma abertura para uma piada galante, seguida de um olhar nos olhos, arrematado por um sussurrar de palavras doces ao ouvido. Também o alertei que em nenhuma hipótese fizesse uso de expressões banais: "você é daqui mesmo?"; ou, "que calor, hein?"; ou ainda, "parece que vai chover". Confesso que se fosse o ouvinte dos sinos, não sei se teria a coragem suficiente para por tal plano em ação, embora, teoricamente, o considerasse de eficiência bem razoável. Mas Zé M. gostou do estratagema, de imediato, entornou o resto da sua dose de cuba libre, respirou fundo e avançou, orientando-se pelos sons dos sinos do amor.

Depois da abordagem, ele contou que no momento exato em que chegara junto à garota, sob a égide de intensa tremedeira geral, esqueceu tudo que eu lhe dissera. Assim, não restava-lhe outra alternativa senão seguir seu próprio instinto. Me aproximei um pouco mais com a pretensão de acompanhar melhor o desfecho — para o bem ou para o mal — da arriscada empreitada em que se aventurava o amigo. De início, ele não disse sequer uma palavra, limitando-se a movimentar lentamente o corpo de um lado para outro, e com ambos os braços estendidos para baixo, batia a palma de uma mão na outra. Primeiro, a frente do tórax, depois, pelo lado de trás, repetindo esta sequência pelo menos umas seis vezes. Quem está fora do "campo de batalha" é óbvio que não raciocina da mesma maneira de quem está ali, na linha dos lanceiros, assim, vislumbrei maus augúrios naquela coreografia de resultado duvidoso e um tanto horrível. Mas, enfim, num ímpeto, ele balbuciou: "Você é daqui mesmo?". Ouviu-se como resposta, um monossílabo impessoal e de magnitude zero quanto ao grau de interesse: "sou". Ele sorriu amarelo, e falou: "que calor, hein?". A garota reduziu ainda mais a intensidade monossilábica, e disse: "é". Já esboçando um plano de retirada estratégica, ele rematou: "parece que vai chover". A moça fez ar de enfado, demonstrando má vontade até mesmo para articular outro monossílabo, e murmurou: "hum".
Apesar da pouca idade compreendi o quão traiçoeira é a mente humana sob estado de tensão, pois ele só lembrara justamente das coisas que eu dissera para não falar. Mas de repente aquele cenário de falta de graça e insipidez mudou abruptamente, atraindo a atenção de todos que se encontravam nas imediações do bar. De olhos esbugalhados e mais pálida que aquele Nosferatu de Herzog, a garota após soltar um grito de pavor, em desespero, correu para bem longe dali. É que o Zé — sem ter mais o que falar—, num movimento rápido e preciso, digno de um samurai movimentando uma daikatana, subitamente, com a mão estendida simulando um punhal, tocara de leve a barriga da menina, enquanto dizia, quase num grito: "Olha a faca!"

Envergonhado e sob intensa zombaria dos rapazes ao redor, caminhou a passos quase trôpegos em minha direção. Inicialmente, pensei em afastar-me o mais depressa possível do lugar, para que não percebessem que ele estava comigo, porém, desisti do intento, afinal, amigos são amigos, seja nos maus ou nos bons momentos. Mas não deixei de passar-lhe severa repreensão. Atordoado, ele justificou: "mas você não disse que eu poderia fazer uma brincadeira, para derreter o gelo?". Tive ímpeto de responder-lhe: "falei para derreter o gelo, e não a Groenlândia inteira". Mas deixei para lá, dei-lhe um tapa amistoso nas costas e nos dirigimos ao balcão do bar para mais duas cubas libres.
Ao menos naquela noite o Zé fez história, pois serenado os ânimos, aquele acontecimento inusitado já era do conhecimento de quase todos os presentes à festa. Muitos dos rapazes até repetiam com outras garotas a brincadeira "singela" do Zé: "olha a faca!", seguida, sempre, de muitos risos. Mais tarde, enquanto a cantora da banda destilava "... se você sente o corpo colar / solte o seu medo bem devagar...", eu dançava de rosto colado com uma garota, e fiquei a imaginar que apesar da abordagem do Zé, desprovida de qualquer ornato ou enfeite, além de nenhum "pé" na complexidade intelecto-sedutora, a noite estava bem divertida. Afinal, em um baile, o que conta mais é a diversão. E neste contexto, talvez a melhor companhia seja mesmo a de um amigo de índole simplória. Se não pensa assim, na sua próxima festa, experimente levar alguém com personalidade kafkiana. ;o)
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Nota:
The Knack... And How To Get It, é o título de um filme britânico, dirigido em 1965 por Richard Lester. No Brasil, A Bossa Da Conquista; em Portugal, Lições De Amor.

DOS LIVROS PERIGOSOS

Erudição e independência. Este estado foi o responsável pelo fim dos tempos. Não, não estou referindo-me ao conflito final na montanha de Tel Meggido, em Israel, escrito por João no livro do Apocalipse. Mas do tempo do cessar da longevidade dos romances; do termo final dos casamentos duradouros; além da cada vez mais crescente opção single de viver. Querem uma prova? Nove entre cada dez poesias escritas na blogosfera fazem alusão a fim de casos, romances impossíveis e nostalgias quase perpétuas. Ou seja, de certo modo, essas pessoas armam-se até os dentes de versos melancólicos com poderes equivalentes ao de um bombardeiro Stealth contra as novas oportunidades de romances, quiçá duradouros e felizes. Alguém aí pode replicar: "é só literatura". E eu não sei? Contudo, de tanto repetir no plenário do senado romano "delenda est Carthago", Catão acabou induzindo Roma a riscar para sempre a cidade de Cartago do mapa-mundi de então.

Afinal, o que mudou no amor? Dentre outros ingredientes, sobretudo o crescente estado de erudição e independência das mulheres, o qual surpreendeu os homens na mesma medida que a cavalaria do rei Creso, da antiga Lídia, foi apanhada de improviso ante o ardil da inédita camelaria criada pelo rei persa - e um dos meus ídolos - Ciro, o Grande. Esta condição, hoje, nas mulheres, aumenta em progressão geométrica, enquanto nos homens esta sucessão é aritmética. Por conseqüência, a seletividade de ambos os lados - também por outras razões, é claro - se acentuou. Desse modo, os motivos mais banais se prestam a por fim a promissores entretenimentos amorosos. Cogita uma mulher, no restaurante: "humm... esse cara tem mastigação demorada. Vou querer passar o resto dos meus dias olhando alguém mastigar desse jeito?" Do lado oposto da mesa, o homem também conjectura: "ela não tira os olhos da minha boca. Acaso eu vou agüentar viver toda a minha vida com uma mulher olhando para a minha boca?

No passado, a mulher sentia orgulho ao ver o homem lendo Nietzsche ou citar versos do poema medieval inglês Beowulf. Por sua vez, o homem achava gracioso que a sua mulher lesse livros água-com-açucar como Éramos Seis, da Sra. Leandro Dupré, ou, O Pequeno Príncipe, de Saint-Exupéry. Mas não se preparou para o reverso da situação: "Émile Zola? Humm... acaso será o nome de algum amiguinho? Deixarei a barba de molho!"

Há livros perigosos, capazes de transformarem corações e mentes. Outro dia, encontrei um antigo colega da faculdade em lamentos por causa de um encontro mal sucedido com uma garota, na noite anterior. Segundo ele, tudo por culpa de um tal de Foucault. De início, imaginei alguma tragédia, até perguntei se a moça chamava-se Desdêmona. Mas não era nada disso, ele contou que ao ser indagado sobre certo pêndulo desse dito Foucault, respondeu que só conhecia o pêndulo de Newton, por sinal até participara de uma experiência relativa a este nos tempos de colégio, e, querendo fazer charme, dissera ainda que através deste pêndulo, Isaac Newton demonstrara a conservação do momentum e da energia. Daí em diante, além de fazer muxoxo umas três vezes, a moça permaneceu desinteressada durante todo o resto do encontro. Percebam como livros realmente são capazes de impedir o florescimento do amor. Por certo a garota referia-se ao romance O Pêndulo de Foucault, de Umberto Eco. Se o colega fosse mais eclético em suas leituras e o tivesse lido de fato, a noite seria inesquecível. Por outro lado, supondo que a garota se interessasse por livros de Física, teria conhecimento que Léon Foucault (o tal do título do romance de Umberto Eco), assim como Newton, também era físico. Logo, ela saberia que o pêndulo de Foucault, no passado, demonstrara a rotação da Terra em relação a um referencial. De igual modo a noite seria maravilhosa, os dois ali, tomando martinis e colocando as cerejas um na boca do outro, enquanto falavam ardorosamente de momentum, energia, quasars, bem como se divertiriam escrevendo equações de Schrodinger nos guardanapos.

Um homem pode ler a coleção inteira de Virginia Woolf - se é que algum deles leu pelo menos um único exemplar -, e dez minutos depois tomar cerveja com os amigos, falando de futebol, completamente esquecido de toda aquela angústia e desfechos infelizes existentes nestes livros. Mas uma mulher, não! Além de tal leitura elevar-lhe à condição de um ente superior, sentimentais como são, tornam-se arredias a romances por considerar que os homens não compreendem a essência do seu âmago. Uma vez me deparei com uma dessas fanáticas por La Woolf, e ao dizer-lhe que gostava de Charles Dickens, ela respondeu: "Não é mau escritor. Li Oliver Twist quando tinha doze anos". Perceberam a fina ironia? Portanto, caro amigo, se você leu Dickens acima dos doze anos, não tem a menor chance de sucesso num flerte com uma garota desse tipo.
Numa dessas noites de fondue de queijo e vinho, juntamente com alguns amigos, elaboraramos uma tabela das reais probabilidades de um homem iniciar um romance com uma mulher, baseado nos autores lidos por ela. Os graus de dificuldade variam de zero a cinco; onde zero é o mais difícil e cinco corresponde ao mais fácil. Confira abaixo:


A independência feminina, por osmose ou não, aos poucos é absorvida pelo homem. Resta transpor a barreira da superioridade erudita do ex-sexo frágil, de modo que, todos, homens e mulheres, sejam felizes para sempre, ou pelo menos enquanto der. A propósito, querida amiga blogger, poetisa de rara inspiração, ao menos nesta semana, no seu post, abrace a velha causa lennon-mccartiana All We Need is Love, evitando escrever versos do tipo: "Cai a noite/ E no escritório em que trabalho/ De frente para os meus quatro diplomas de MBA/ Sou envolvida pela melancolia daquele antigo amor/..." ;o)

PLAY IT AGAIN, PICKWICK!

Já escrevi aqui que estudo música, erudita e popular, desde os quatorze anos... Como disse? Não, não faz tanto tempo assim! Não sou nenhum Matusalém, também toco Hard Rock e Heavy Metal em guitarra elétrica.
Fiz este clipe para homenagear o blog O Bar do Ossian - do qual sou colaborador -, no seu primeiro aniversário, decorrido em Outubro último. Inseri animações de um artista digital de raro talento, o Ruela, que também é um dos redatores e criadores d'O Bar. Além disso, incluí uma interpretação minha em violão acústico da peça musical Bachianas Brasileiras N0. 5, de Heitor Villa-Lobos. Estudei este arranjo ao longo de dois anos, e, agora, num ímpeto de destemor, resolvi apresentar para os amigos que chegam ao condado. Quando postei o vídeo n'O Bar, o Ruela não sabia desta parceria, pois fizera a montagem do clipe sem o seu prévio conhecimento. Felizmente, ele gostou do trabalho, e aproveito para agradecer-lhe outra vez pela cessão das imagens.
Relembro de novo, que sou um músico doméstico, bem entendido?

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Notas:

Heitor Villa-Lobos (1887-1959). É o maior compositor brasileiro nos gêneros de música erudita e popular. Bem, pelo menos em minha opinião.

Bachianas Brasileiras N0. 5. O ciclo das nove "Bachianas brasileiras" é um dos destaques no conjunto da obra de Heitor Villa-Lobos. O uso do nome do ciclo no plural, mesmo quando se trata de uma única música, era um costume habitual deste compositor.


Nepotismo explícito

Visite o blog da minha irmã, Baú de Guardados. Contos, poesias e ensaios. Literatura acurada do Sul da Bahia. Sou suspeito para elogiar, portanto, confira você mesmo. ;o)



LUCUBRAÇÕES A RESPEITO DO ÓCIO

Em circunstâncias raras, desvio do itinerário que me conduz ao escritório e decido assistir a um filme em plena sessão da tarde. Cinema é antes de tudo, arte - a sétima, dizem -, no entanto, um segmento artístico inseparavelmente ligado ao entretenimento. Mas pensa que a diversão nesta conjuntura é saudável e relaxadora? Qual o quê! Em diversos instantes da sessão o pensamento é incitado por conflitos existenciais como: "se os impérios babilônio, persa e romano desapareceram por causa do ócio, imagine o meu negócio, que nada tem de imperial". Nessa hora, melhor seria desconhecer a História e, livre de tensões mentais, descontrair-se com o visual da Scarlett Johansson exibido nas cenas do filme.

Na antiga cabala judaica, "o nada" - que, por analogia forçada o substituo aqui por "fazer nada" - é a verdadeira natureza divina concebida como a transcendência absoluta em relação às realidades do mundo. Nos dias atuais, leia-se: livrar-se do congestionamento do trânsito, dos impostos abusivos, de conversas na cama sobre sexo, discutir a relação, aturar políticos corruptos, tentativas de "conversar" com um software da companhia telefônica, dentre outros dissabores. Espertos, esses hebreus, hein? Mas eles estavam certos, o que precisamos, hoje, é de um pouco mais de filosofia. Acaso o amigo leitor conhece algum filósofo com estresse? Nem precisa responder, por antecipação sei que a resposta é "não".

Voltemos a atenção para a vida de Nietzsche, um praticante legítimo da condição "tempo desocupado". Porque, convenhamos, se este superastro da filosofia, dia-a-dia, batesse cartão de ponto na hora da entrada e da saída do trabalho, sequer escreveria cinco por cento da sua vasta obra. Certa feita, ele disse: "quem ama o abismo, necessita de asas". Quem de nós, mortais comuns, por mais apaixonados que fôssemos por este acaso originário da ação de agentes geológicos por eras a fio, caminharia próximo da sua borda sem acessos de pavor? Ninguém, exceto os filósofos. De imediato, eles criariam um artifício semelhante ao das asas nietzschianas. Dessa maneira, passear à beira de despenhadeiros é quase tanto agradável quanto deitar-se em uma rede e refrescar-se pela ação de Sherazades movendo abanos.

Além de derrubar impérios, o ócio também revolucionou as doutrinas ideológicas. Karl Marx, nascido em uma família de classe média, também era um filósofo contumaz da prática do "não estou nem aí". Mais tarde, na vida adulta, longe da comida caseira da mamãe, meteu-se em sérios apertos financeiros, porém, superou-os, casando-se com uma mulher de família nobre, e além disso, recebia providencial auxílio financeiro do amigo Engels, o qual, ao contrário de Marx, tinha talento digno de especulador de Wall Street para amealhar dinheiro. Dessa maneira, o tempo continuou sendo dadivoso para com ele, permitindo-lhe escrever a sua obra maior, O Capital, que culminou no marxismo ou socialismo científico, a doutrina ideológica de muitos sistemas econômico-sociais. É curioso, não? Desde aquele tempo essa turma da esquerda é excelente para planejar, e péssima para administrar recursos, especialmente financeiros.

Um dos precursores da implementação deste maravilhoso status "quem, eu me preocupar?" foi o filósofo grego Epicuro, lá pelos idos do século IV a.C. Cansado de toda aquela agitação da acrópole ateniense, comprou um imenso sítio nos arredores da cidade e ali reuniu amigos, amigas e numerosos discípulos em uma comunidade. A essência da sua doutrina? O bem é o prazer. Por sinal, o slogan do lugar era "aqui reside o prazer". E a prova maior de que ele estava certo é que, além de estar ali naquela vida boa, a filosofar, conversando com colegas, apreciando aquelas belas garotas que usavam um tipo de minissaia com um nome esquisito - quitão -, ainda teve tempo de escrever mais de trezentos tratados. Se existisse rock'n'roll naquela época, este seria o paraíso perfeito.

O ócio, para alguns, é um atormentador de consciências: "dormir até mais tarde? Humm... não sei... E se o senhor Pelópidas aparecer lá no escritório justo no início da manhã? Perderei o melhor contrato do ano". Jamais esquecerei de certo operário - competente e qualificado - que trabalhou em algumas das minhas obras mais antigas. Sempre que propunha-lhe trabalhar algumas horas extras no fim de semana com o objetivo de acelerar determinada etapa do cronograma, ele respondia: "porque faria isso, arquiteto? Deixar de tomar a minha cerveja; de assistir ao futebol; e de ficar com a família? Não matei a minha mãe!" Em seguida, soltava uma risada ruidosa. Admiro caras assim. Esclareço que, caso aceitasse, ele seria remunerado conforme a legislação específica para trabalho extraordinário.
Mas é preciso despreocupar-se, pois o futuro sempre vem. Ioga? Humm... muito tedioso. Um Spa? Não, muito chique. Contrariaria os meus princípios espartanos. Psicanálise? Não, não dá. Meteriam o bedelho nas minhas produções imaginárias. Tenho pretensões a escritor, além disso, não seria justo com a minha mãe. Quer saber? Filosofia! Sim, porque não pensei nisso antes? Começarei do começo. Alguém aí me empresta um Sócrates?

A GAIOLA DE FARADAY

Às vezes, desconfio de que o colégio ao qual frequentei durante parte da infância e por toda a adolescência, dissimulava em sua arquitetura austera e quase secular, uma Gaiola de Faraday1. A despeito da sua excelência no ensino, verdadeiro referencial para a região, ali, tudo se passava mais ou menos como no tempo do meu pai. Os professores, todos eles, ministravam as aulas vestidos de terno e gravata, à exceção do professor Agnísio, de saudosa memória, que ainda acrescentava a este traje convencional, um colete, de onde pendia o cordão de ouro de um legítimo, raro, e antigo Cyma de bolso.

Os livros adotados também eram parte essencial deste universo de ecos do passado, espessos e volumosos, qualificavam-se nestas categorias como verdadeiros páreos para Memórias Da Segunda Guerra Mundial, de Churchill. Tive sorte em não adquirir uma escoliose, especialmente nos três últimos anos correspondentes ao curso médio, pois carregava dia após dia, de casa para o colégio e vice-versa, livros de Física, Química e Matemática, de autoria dos Irmãos Maristas, Valdemar Saffioti e Jairo Bezerra, respectivamente. Sobre este último, além das características "padronizadas" dos demais, ou seja, espessos e volumosos, era impresso em letras miúdas e quase não havia ilustrações. Ao adquiri-lo na livraria, apesar de novo, tinha a sensação de que as suas páginas já vinham por antecipação, amareladas pelo tempo. Além disso, acredite se quiser, como complemento deste livro, ainda utilizávamos outro, a Tábua De Logaritmos, usada para calcular o logaritmo de um número em determinada base, uma criação do ano de 1614, por um matemático chamado Napier.
Morríamos de inveja dos livros de matemática, fininhos e fartos de ilustrações coloridas, dos amigos que estudavam em outros colégios. Até que um dia criamos coragem, formamos uma comissão e nos dirigimos ao mestre da disciplina: "professor, e sobre este negócio de Teoria dos Conjuntos que os alunos de outros colégios estudam? Chamam de matemática moderna. Nós, também, não vamos ver isso?" Sem mudar um és-não-és da sua fisionomia zen, ele nos respondeu: "qual nada, meus filhos! Em qualquer tempo a matemática é a mesma, dois mais dois sempre serão quatro". Sem argumentos, voltamos às páginas de Jairo Bezerra e à velha Tábua de Logaritmos.

Fui aluno deste professor nas três séries do curso colegial, portanto, tenho mais horas de demonstração de teoremas que urubu de voo. Para nós, alunos daquele lugar, não bastava saber que, num triângulo retângulo, o quadrado da hipotenusa é igual a soma dos quadrados dos catetos. Tínhamos que provar isso, analiticamente. E se não quiséssemos perder meio ponto num determinado quesito de algum exame, ao fim da demonstração de qualquer teorema ou corolário, éramos obrigados a escrever: "c.q.d.", iniciais de "como queríamos demonstrar". Assim mesmo, no plural majestático, fazendo uso da palavra "queríamos" em vez de "queria".
Se chegou até este ponto da leitura, decerto não se surpreenderá em saber da existência de censores no colégio. Também chamado de bedel - conforme a região do país - havia um para cada sala, responsável pela vigilância e manutenção da ordem nos intervalos entre aulas, especialmente na hora do recreio. Todos eram mulheres, e em sua maioria, quase velhinhas. Apesar de o apelidarmos com alcunhas vezes nada lisonjeiras, além de outras brincadeiras de gosto duvidoso, em todos estes anos, jamais soube da circunstância de que algumas destas senhoras delatassem para a diretoria algum aluno surpreendido em falta. Uma delas, chamada Dona Georgina, deu provas de possuir coração de ferro e resistência excepcional a sustos, à vista de muitas vezes aproximarmos-nos dela, por trás, silenciosamente, e numa corruptela do primeiro verso da famosa balada de Ray Charles, cantarmos, aos gritos, próximos ao seu pé-de-ouvido: "Georgina on my mind...".

Nesse tempo, tive as primeiras sensações de que as mulheres, de fato, deveriam governar o mundo, pois nunca presenciei e jamais soube de nenhuma ocorrência na qual alguma menina do colégio fizesse tais brincadeiras com aquelas simpáticas senhoras. Muito ao contrário, além de nos criticarem duramente por tais procedimentos, elas confortavam as velhinhas, e ainda ameaçavam delatar-nos para a diretora, a legendária Dona Lindaura.
De modo distinto dos alunos da maioria das outras escolas, estudávamos análise léxica e análise sintática, logo, em nome da boa linguagem, palavrões eram proibidos no interior da escola. O aluno surpreendido proferindo algum deles, era suspenso por três dias e só retornava acompanhado de pai ou mãe. Fazer tal comunicação aos pais era uma situação de perigo real e extremo, o "sentenciado" corria o risco de conversar, no céu, com John Lennon. Mas, nossos volumosos e espessos livros didáticos não serviam apenas para aprendermos que F = mg, nos auxiliavam também na criação de certos códigos. Por exemplo, em atitudes de raiva, em vez de proferirmos aquela famosa tríade de palavras cuja primeira começa com "p" e a última também, dizíamos: "butadieno!"; ou, "tetra-penteno!"; ou ainda, "Sá de Miranda!". Suponho que, lá em cima, o poeta nos perdoava, enfim, ele também foi jovem um dia. Em outra situação, se quiséssemos mandar certo colega àquele lugar, buscávamos ajuda na Biologia, usávamos a seguinte cifra, dita num tom de voz bem forte: "vacúolo...", aí, dávamos uma pequena pausa, e com voz fraca, complementávamos: "...endoplasmático!" Engenhoso, não?

Muito mais do que conhecimentos do tipo sen(a + b) = sen a.cos b + sen b.cos a, tínhamos, também, numerosas lições de vida ali. E a melhor delas era o eterno aprendizado no relacionamento com garotas. De flertes a amores platônicos, afinal, um dia, todos nós, casaríamos e teríamos filhos. Nesta questão, nossos livros espessos e volumosos, aparentemente, tinham pouco a contribuir.
Dessa maneira, certo dia surpreendi-me sonhando acordado e ouvindo baladas românticas - escondido dos meus amigos do hard rock e do heavy metal, é claro - por causa de uma garota da minha classe, de nome E.S. Naquele tempo, tinha surtos de timidez, então, tornara-se uma questão existencial para mim, a de como aproximar-se de uma garota bonita. Aproximar-se até que era fácil, difícil era convencê-la a dizer "sim" às minhas intenções. No parágrafo anterior escrevi que aparentemente os livros espessos e volumosos não tinham nenhuma serventia em equacionarem romances de amor. Porém, as aparências enganam, descobri que aqueles queridos e robustos repositórios de saber também poderiam acumpliciar-se às coisas do coração.

Não demorou muito, e certa vez, após soar a campainha que sinalizava o final da última aula, ofereci-me para carregar os livros de E.S. Resultava óbvio que na hipótese da aceitação daquele oferecimento, era tácito que o acompanharia até a sua casa. Ela fitou-me por alguns instantes com um olhar babilônio de surpresa. Minhas pernas, absolutamente fora do controle cerebral, tremiam à revelia, no tempo em que aguardava a resposta. Não sei se por virtude de algum interesse romântico, ou por comodidade em aliviar-se daquela carga digna do gigante mitológico Atlas, ela aceitou a proposta. Assim, mais carregado do que mula de garimpeiro montanhês - pois além dos meus, carregava também os livros dela - quase todos os dias o acompanhava até a sua moradia. De início, por conta da timidez, não conversávamos muito durante o trajeto, porém, satisfazia-me caminhar ao seu lado e lançar-lhe olhares de soslaio. Com o passar do tempo, sentia-me mais confortável e menos tenso em sua companhia, e até ousava, na linguagem dos tímidos, fazer insinuações à sua beleza delicada, demais outros engraçamentos singelos. Quase três meses depois, pela primeira vez adentrei o portão do jardim que frenteava a sua casa, e sob a cobertura da varanda que antecedia a entrada da residência, confessei a atração. Ela não demonstrou no semblante nenhuma surpresa, parecia que esperava que dissesse aquilo desde que Noé dera início à construção da arca anti-diluviana. Sorriu, olhou para o interior da casa com o fim de certificar-se de que ninguém nos observava, e trocamos o nosso primeiro beijo. Tímido, como deve ser o primeiro beijo dos melhores romances. Em seguida, entrou em casa, fechando a porta bem devagar, por etapas, sem que desviássemos os nossos olhares sequer por um segundo.

Saí dali nas nuvens. Dei alguns passos, iniciando o caminho de volta, quando avistei, adiante, uma lata vazia de Neston no meio da rua. Talvez por conta do calor do sol a prumo, ou pela falta de algum confidente o qual poderia compartilhar o meu estado de euforia, mirei as vistas na lata, acelerei a frequência das passadas, marchando em sua direção. Ao aproximar-me desta, apliquei-lhe um potente chute. A lata ganhou os céus tal como um Demoiselle movido por um combustível dito passion, percorrendo uma trajetória parabólica, indo cair muitos metros mais a frente. Para a minha sorte, não atingiu a cabeça de nenhum transeunte. E naquele instante, me pareceu verdadeiro o entressonho de que a trajetória de latas voadoras conspira a favor daqueles possuidores de corações pertinazes e apaixonados.

Mas, nem tudo foi um jardim de flores nesses quase três meses. Ainda no nascedouro, a notícia da minha atividade de carregador de livros de garota bonita correu pelo colégio feito rastilho de pólvora. E em tempo célere, fui objeto de ataques sucessivos de zombarias dos colegas. Numa prova de que as aulas da saudosa professora de português Teresa Ribeiro surtiam efeito, descortinaram uma coleção de sinônimos para qualificar-me: adulador, bajulador, puxa-saco, come-espiga, cortesão, quebra-faca, enxuga-gelo, escova-botas, dentre outros menos simpáticos. Mas não me importava, aquilo fazia parte do nosso código de honra zombeteiro, tinha força de lei. Além do mais, nunca desperdicei oportunidades de exercitar a minha paciência, tanto é que jamais deixei de abrir a porta de casa para atender a testemunhas de Jeová e de igual modo não declino em ouvir preceitos daquele pessoal da Seicho-No-Ie em aeroportos.
Nessa ocasião, outro detalhe fortificou ainda mais as minhas conjeturas de que as mulheres deveriam governar o mundo. Nenhuma das garotas tomou parte nestas investidas de gracejos contra mim, antes pelo contrário, muitas delas lançavam-me olhares maliciosos e sorrisos sutis, como se intencionassem transmitir um oportuno recado: "está no rumo certo".
E é claro que, um dia após o voo da lata, ao circular de mãos dadas com E.S. pelas dependências do colégio, as zombarias cessaram por completo, tornando-as meras reminiscências da força da perseverança. Disce pati, si vincere voles.

E SE QUISER SABER MAIS sobre a Gaiola de Faraday, inclusive da sua relação com viagens no espaço-tempo, leia um bom livro de Física, de preferência, é óbvio, dos Irmãos Maristas. No mínimo, vai compreender melhor os fenômenos daquela misteriosa ilha do seriado Lost.
;o)

Nota:
1) Gaiola de Faraday. É uma blindagem eletrostática, isto é, uma superfície condutora que envolve determinada região do espaço, a qual, sob certas circunstâncias, é capaz de impedir a entrada de energias produzidas por campos elétricos e/ou eletromagnéticos. Os efeitos no interior do condutor se anulam, resultando num campo elétrico nulo.
O nome é originário de um experimento feito pelo físico inglês Michael Faraday, em 1836, para provar os efeitos desta blindagem. Um exemplo prático desta experiência é a ocorrência de tempestades de raios que atingem um avião, sem afetar os passageiros. A estrutura metálica da aeronave (o condutor) recebe a carga elétrica e a distribui de forma homogênea, de modo semelhante à Gaiola de Faraday.

MEUS QUERIDOS FILMES RUINS

Há filmes ótimos; alguns, inesquecíveis; tem aqueles marcantes, em geral associados a um momento particular das nossas vidas; outros, são produzidos com orçamentos tão baixos que, inevitavelmente, resultam em trabalhos precários, despretensiosos, ruins. Contudo, ensinei ao meu coração ser generoso e reservar um lugar - dentre as minhas lembranças boas - até mesmo para alguns desses filmes, meus queridos filmes ruins. Nessa categoria, um dos meus favoritos é O Homem Cobra (Sssssss). O leitor amigo pode deduzir que apesar de filme B, o título original é profícuo em criatividade, pois utiliza-se de uma onomatopeia, Sssssss, o som característico emitido pelas cobras, o sibilar.

Você já se acostumou aos vilões carismáticos do cinema - aqueles que praticamente roubam a cena - como, por exemplo, Darth Vader, da saga Guerra Nas Estrelas; ou, se impressionou com o charme cibernético de HAL-9000, o computador malvado de 2001, Uma Odisséia No Espaço. Vilões tem seus objetivos, e por mais absurdos que nos pareçam, estes objetivos têm certa lógica; nefasta, é verdade, ainda assim, lógica. O doutor No, por exemplo, o cientista maligno do primeiro filme da série James Bond, O Satânico Doutor No, tem um projeto secreto para destruir o programa espacial norte-americano e, posteriormente, conquistar o mundo. O monstro Frankenstein, por sua vez, tinha lá suas razões para exibir tamanha revolta, pois com a aparência que lhe deu o seu criador, o doutor Henry Frankenstein, tornou-se extremamente difícil para a criatura o convívio social com as pessoas. Por conta desta total dessemelhança com Brad Pitt, a infeliz criatura ainda padecia de grande dificuldade em arranjar namorada. Outro caso de vilão que sabe o que quer é o de Sauron, da trilogia O Senhor Dos Anéis. Mesmo dando as caras em um único flashback - no comecinho do filme -, ele é onipresente ao longo de toda a história, deixando às claras a sua sede de poder.

Bem, agora que relembrou que os vilões são explícitos e lógicos em suas metas, surpreenda-se com a razão nada cartesiana do Dr. Carl Stoner - o cientista louco de O Homem Cobra -, o qual, por razões evidentes, conforme verão adiante, não goza de nenhum prestígio na comunidade científica. O doutor Stoner tem planos para transformar - através da injeção de um soro desenvolvido por ele - todos os seres humanos do planeta em cobras. Isso mesmo, todos! Homens, mulheres, crianças, toda espécie humana condenada a "falar" Sssssss para sempre e a rastejar sobre o próprio ventre.

Para cobaia do experimento, o doutor Stoner escolhe o seu assistente, por sinal, namorado da sua filha. Sob a alegação de que era um tônico fortificante, injeta graduadamente o tal soro no genro. E pensar que tem gente que fala mal das sogras, hein? Eu mesmo já ouvi muitos afirmarem que elas são verdadeiras cobras. Uma insinuação injusta, que conta com o meu repúdio. Mas mudando de sogras para cobras... mudando? Ora, não me confundam, "mudando", sim! Pois, são seres inteiramente opostos! Mas, aqui entre nós, eu aposto que você vai mostrar este post para a sua sogra, não vai? Assim como quem não quer nada... de brincadeira... dando risada: "dona Kruela, venha ver, olha só o que esse cara escreveu aqui!"
Dia a dia, o genro do doutor Carl Stoner, de modo paulatino, transforma-se num ente meio-homem, meio-cobra, e, por razões óbvias, mete-se em encrencas. Finalmente, angustiado com a metamorfose irreversível em curso, procura refúgio na floresta, onde se dá o ápice do filme: a transformação completa do infeliz numa cobra de verdade. Os efeitos especiais desta mutação, ou melhor, defeitos especiais - tamanha é a pobreza do evento - elevam a pretensa sequência de horror numa cena muito divertida. A sensação que passa, é a de que a equipe responsável por estes efeitos utilizou-se do Paint Brush, aquele singelo editor de imagens que vem grátis no Windows.

Uma vez cobra, o jovem assistente põe-se a rastejar, serpenteando pela floresta e fazendo "Sssssss", deparando-se, certo tempo depois, frente a frente com um mangusto. O genro de Stoner, ou melhor, a cobra, estacionou, fitando aquele animal dentuço e de aparência engraçada, sem desconfiar de que o destino reservara-lhe outra cilada. Quem assiste aos canais Discovery ou National Geographic, certamente já viu algum documentário a respeito do mangusto, um animal pequeno, porém muito voraz, tido como o maior predador de cobras do planeta. Leitores mais sensíveis, sejam fortes, pois o desfecho desse encontro é por demais melancólico. Sim, os seus temores, infelizmente, são verdadeiros, o ex homem cobra é devorado pelo insensível mangusto.
Mas, espere! Só agora percebi. Raios! Raios duplos! O que fiz? Contei um filme! E ainda por cima, ruim, muito ruim. Foi mal, hein? Desculpa aí!

Nota: O Homem Cobra (Sssssss). Direção de Bernard L. Kowalski. Elenco: Strother Martin, Dirk Benedict, Heather Menzies. Estados Unidos, 1973.

A VOLTA AO MUNDO A BORDO DE UMA LIVRARIA

Adoro livraria. É a mais culta de todas as lojas, além de um bom lugar para se divertir. Tem café expresso, sorvete, sofás e poltronas confortáveis, CDs, DVDs, Aspirina, quiosque do McDonald e, é claro, livros. Num dia de sorte você ainda pode surpreender aquele colega de trabalho de esquerda, entusiasta de uma nova revolução bolivariana nas Américas, bem de frente para a vitrina dos livros mais vendidos, folheando romances e novelas de baixa literatura. Ou, quem sabe?, flagrar aquela vizinha do andar superior, de ar compenetrado, óculos de aros baixos, supostamente, leitora compulsiva de Virginia Woolf, no momento exato em que ela acabou de pagar por um exemplar de O Segredo. E, o que é melhor, ela não pediu que embrulhasse para presente.

A livraria não é apenas um universo de três estilos literários - ficção, não-ficção e auto-ajuda -, também, é um lugar para se falar mal de livros. Antes, um esclarecimento, "ficção", como sabem, é o gênero daqueles livros escritos pelas pessoas que por anos a fio, na hora de dormir, contavam histórias para os filhos quando estes ainda eram pequenos. Dessa maneira, foram desenvolvendo uma incrível capacidade na arte de inventar. Infelizmente, alguns degeneraram para o território das mentiras colossais, como os políticos, por exemplo. Por outro lado, "não-ficção", geralmente, são escritos por aqueles que preferiam comprar livros de histórias para a criançada, em vez de contá-las, pois andavam sempre ocupados, escrevendo relatórios importantes, assistindo futebol na TV, ou vendo telenovelas. Finalmente, os categorizados como de "auto-ajuda", são redigidos por aqueles que não adotaram nenhuma destas práticas.
Fala-se mal de qualquer coisa, inclusive de livros. Tenho um amigo daqueles bem radicais, vegetariano, rato de cinemateca, fã ardoroso do cinema alternativo, tais como o iraniano, o paquistanês e o argentino, que não perdoa escritores que vendem muito; livros que viraram filmes; e aqueles escritos para pura distração. "O Código Da Vinci? Humm... virou filme, é ruim! Não leio baixa literatura". É curioso as categorias que inventam para a literatura: alta e baixa literatura, como se esta fosse a Idade Média. Quando era menino, li muitos livros de piratas que singravam os sete mares em busca de fortuna e aventura. Hoje, todos eles se classificariam como baixa literatura. O que eu sei é que, além das coordenadas da Ilha de Tortuga e outros conhecimentos adquiridos, me diverti muito lendo todos eles.
Analisemos a obra de Lord Byron - topo desta categorização literária - no poema Corsário, onde este escritor inglês narra as aventuras de Conrado, cavalheiresco pirata dos mares gregos, homem fatal, irresistível, às voltas com mulheres apaixonadas, além de um sultão turco chamado Seyd nos seus calcanhares, disposto a decapitá-lo assim que o capturasse. Confessem, com todo respeito ao poeta, não serviria de enredo para um emocionante filme de capa e espada estrelado por Burt Lancaster ou Errol Flynn se vivos ainda fossem?

Outro dia, diante de uma prateleira repleta de livros de auto-ajuda direcionados para a mulher, mirei num título inusitado: Homens São de Marte, Mulheres São de Vênus, de John Gray. Como é mesmo?, refleti, largando súbito o Neruda que segurava, dirigindo-me à toalete em busca de um espelho. Não que seja demasiado vaidoso com a aparência, mas ser parecido com um daqueles homenzinhos verdes, raquíticos e de cabeça gigantesca não era do meu agrado. Diante do espelho, senti-me aliviado, não que estivesse refletido ali nenhum George Clooney, contudo, era o meu rosto de sempre. Aliás, nesta mesma prateleira, mais à esquerda, havia outro título singular: Sorria, Você Está Na Menopausa, de Maria Helena Bastos.

Esse negócio de livros às vezes assusta. Não, não me refiro a nenhum conto ou novela de terror de Algernon Blackwood, mas de certo livro que encontrei na casa da tia Marizete, sempre lembrada pelo seu famoso bolo de chocolate das Sextas feiras. Enquanto aguardava o precioso manjar, corri as vistas pela sala, defrontando-me com o título do tal livro: Manuel De Sobrevivência Da Mulher De Meia Idade, de Léa Maria Aarão Reis. Sendo a minha tia uma viúva que mora sozinha, confesso, fiquei apreensivo. Em razão da sua faixa etária, estaria esta querida doceira de primeira linha, exposta a algum tipo de perigo mortal? A primeira sensação foi a de que aquele título sugeria um treinamento militar digno do Mosad. Raios duplos, pensei, por acaso um cyborg vindo do futuro - como aquele interpretado por Arnold Schwarzenegger em O Exterminador do Futuro (Terminator) -, estava a caça de mulheres de meia-idade, pronto para apontar-lhes um Kalashinikov e dizer-lhes: "hasta la vista, baby".
Frequentar livrarias tem dessas, dá asas à imaginação.

O FIM DA INFÂNCIA

O que é melhor, ser adulto ou ser criança? Eu aposto no empate. A psicologia define o adulto como o indivíduo que atingiu plena maturidade, expressa em termos de adequada integração social e apropriado controle das funções intelectuais e emocionais. Não que seja nenhum bad boy, mas, cá entre nós, leitor amigo, desconfio que o verdadeiro propósito dos psicólogos nesta descrição era definir um indivíduo muito enfadonho, praticamente, um chato de galochas.

E ainda que não seja nativo das terras de Peter Pan, mesmo assim, ao longo da linha do seu próprio tempo, convém prorrogar ao máximo o fim da infância. É garantia de levar adiante - para a nem sempre fácil vida de adulto -, o sentimento da espontaneidade; do manifestar-se como que por instinto, sem premeditação ou desvios. Em síntese, desfrutar melhor das vantagens da sinceridade em seu estado mais puro. É óbvio que cultivará uma pequena reserva de essências de hipocrisia e de falsidade, oportunas em dadas circunstâncias, pois se num determinado evento, ao ser apresentado àquele senhor de cabeça gigantesca, por certo conterá o ímpeto - ao contrário do que ocorre nas crianças - de chamá-lo de Cabeção, ou ainda, num exercício mental de criação mais apurada, apelidá-lo de Cabeça de Arromba Navio. Em sociedade, pratique, sempre, as boas maneiras.
Se, por exemplo, estiver num congresso da sua categoria profissional, na hora do cofee break, ali, de maneira discreta, entre os seus amigos mais chegados, não despreze a hipótese de uma frase mais espirituosa acerca do imenso nariz do último palestrante: "Viram aquilo? Quem sentou na primeira fila, por um triz não foi abalroado por uma narigada".
Outro procedimento saudável é não levar muito a sério o seu título de PhD, pois este poderá deixá-lo angustiado e obsessivo nas suas tentativas, dia-a-dia, de corresponder à demasiada importância que você o atribuiu. Imagine este cobiçado diploma como um não menos cobiçado Playstation III por uma criança. Nenhum adolescente, fã deste console, frustra-se pela condição de não conseguir zerar o jogo Resident Evil, muito ao contrário, ele conversa com amigos, tenta outras estratégias, e, nesse ínterim, sequer um minuto de diversão é desperdiçado.

No elevador, encontrou aquela vizinha amiga, colecionadora de títulos de MBA e um tanto estressada por excesso de trabalho no cargo de vice-presidente da Companhia Chupa Sangue S.A.? Não tente bancar o adulto, intencionando ensinar-lhe um daqueles mantras horrorosos - duuummm, zuummm, togiziduuummm - ou alguma daquelas posturas tediosas do ioga, capaz de fazê-la atingir o mocsa. Seja natural como as crianças, faça perguntas ou afirmações ingênuas, como por exemplo: "já assistiu ao filme A Volta Dos Que Não Foram? ou, "ontem, vi um filme muito bom, Poeira Em Alto Mar".

Porém, se é vintage e a sua preferência é o estilo retrô, experimente animar a sua vizinha estressada com este método do tempo do meu avô. Proponha o seguinte teste, tudo que disser-lhe, ela terá de responder - rapidamente - com a última palavra da frase que você usou, acrescida do vocábulo "arida". Por exemplo: se você diz, "eu vi um carro", ela responde, "carroarida"; e você continua, "eu vi um pássaro", ela replica, "pássaroarida". Você inventa mais umas três, e, finalmente, fala: "eu vi uma estopa", ela diz: "estoparida". Quando ela perceber a inocente armadilha, no mínimo, dá um sorriso. Algumas riem antes mesmo de responderem: "ah!..., já sei, estou parida".
Nesta mesma linha, tem outra igualmente apropriada para estas ocasiões, também do período paleolítico. Você pode pedir a alguém que repita várias vezes a seguinte expressão: "meu pai, Eva e Adão". Primeiro, bem devagar; depois, cada vez mais rápido. Vamos lá! Faça isso, e veja o resultado1.

Mas seja cuidadoso, prolongue o fim da sua infância com cautela e moderação, não esqueça que de fato você é um adulto, paga o leite das crianças, impostos, e os privilégios desmedidos de deputados e senadores. Portanto, não vá bocejar em demasia enquanto aquele casal de amigos, vibrando de entusiasmo, exibir para você o vídeo do primeiro aniversário do filhinho deles, por sinal, com direito a replay das melhores partes, ainda que este registro familiar - geralmente só visto com entusiasmo pelos pais do aniversariante - transmita a sensação de durar tanto quanto aquele famoso filme, E O Vento Levou. Tampouco faça cara de terror - como se estivesse de frente para Freddy Krueger - depois de ouvir a frase dita pela sua colega de trabalho após mostrar-lhe a fotografia do seu bebê, nascido de poucos dias: "não é uma gracinha?".
__________
Nota:
1) Esta não tem efeito em Portugal, pois, diferente do Brasil, onde o termo jocoso empregado para designar um gay, é "veado"; lá, eles usam a palavra "paneleiro".

FEZTA

O maior evento anual do Condado de Deux Chevaux

Criada por Sir Frederico Xavier e Sir Danilo Risada, a Fezta Medieval do Condado de Deux Chevaux é um evento temático que ocorre em Salvador, Bahia, no qual um grupo de amigos e convidados se reúnem anualmente, desde 2005, para se divertirem aos moldes das culturas da Europa e Oriente medievais.
O termo "Fezta" é uma licença poética, portanto, não representa um erro ortográfico.


Abaixo, vejam algumas cenas da Fezta:


E assistam ao clipe da emocionante Corrida Gaulesa:

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Muitos dos participantes da Fezta fabricam as suas próprias espadas, arcos e flechas, cotas de malha, escudos e elmos. Por sinal, o condado dispõe de uma forja rústica para o fabrico destes objetos. Mas a sua especialidade maior é a arquearia, o fabrico artesanal de arcos e flechas. Na sequência das imagens acima, poderão identificar uma réplica do arco longo inglês, outra do arco persa, dentre outros modelos.

A Fezta é realizada no mês de Novembro, inicia-se em uma Sexta feira, à noite, e prolonga-se continuamente até a noite de Domingo. Os participantes – divididos em quatro Casas, ou clãs -, alojam-se na edificação-sede do sítio, mas devido ao seu grande número, muitos trazem barracas de camping que são montadas no local.
Durante a noite a iluminação por lâmpadas elétricas é restrita às necessidades mínimas, prevalecendo luzes de velas e de candeeiros.
Confessem, muitos de você acreditavam que o Condado era pura fantasia, não? :o)

A ÚLTIMA FLOR DO LÁCIO

Se nascido fosse no Uruguai, yo hablaria castellano con gran placer. Mas, aprenderia português. E por não dispor de sextante nem astrolábio, se numa bruma impressentida a cegonha desviasse o rumo pré-estabelecido e fizesse do Afeganistão o meu lugar de nascença, a despeito das chagas que há tempo são lançadas sobre aquele país montanhoso, de mulheres tão bonitas, e de um povo em busca da longínqua identidade perdida, também não me importaria. Desde que houvesse a oportunidade de aprender o idioma português.

Considero o latim, escrito e falado, a língua mais bonita de todos os tempos. Até assisti três vezes aquele filme famoso, O Massacre da Serra Elét... ops, desculpem! O Massacre de Crist... não, não é isso! quero dizer, A Paixão de Cristo, de Mel Gibson, somente para ouvir os diálogos em latim entre as personagens romanas.
Mas o latim gerou filhas quase tão soberbas quanto ele, entre as quais, a derradeira das suas flores, a língua portuguesa. A última e mais bela das filhas do latim. A última flor do Lácio.
Dizem que é uma língua difícil. Para quem não fala, talvez. Quando era menino, conheci um dos melhores amigos do meu avô paterno, um sujeito engraçado, libanês de origem, e cujo nome fora aportuguesado para Jorge Gringo. Se existisse vida no Planeta Marte, o português falado pelo Sr. Jorge cairia como uma luva para língua nativa deste astro, pois era alienígena, se considerarmos a língua praticada nos países lusófonos como padrão. Certa vez, ouvi o meu avô, em tom de brincadeira, dizer-lhe: "amigo Jorge, és burro duas vezes. Primeiro, porque esquecestes por completo a tua língua nativa, o árabe; segundo, porque moras há mais de quarenta anos por aqui e nunca aprendeu a falar o português". Esta fala do meu avô acabou incorporada aos anais folclóricos da cidade.

Há idiomas ricos, a exemplo do alemão. Dizem até que é o preferido dos filósofos. Mas tem uma sonoridade... Se um indivíduo que não sabe sequer o significado de "Guten Morgen" nesta língua, ouvir a declaração apaixonada de um alemão à uma bela donzela, aos seus ouvidos lhe parecerá que o declarador está a xingar e a amaldiçoar a garota até as três gerações seguintes.

Mas se o prezado leitor é apreciador contumaz da música das palavras, da sutileza, da ambiguidade e da poética que impregna frases e até mesmo um único vocábulo, então, o seu negócio é a língua portuguesa. Voltemos na linha do tempo até a descoberta da Ilha de Vera Cruz, e pousemos nossos olhares sobre o pequeno trecho da crônica do nascimento do Brasil, a carta que o escrivão Pero Vaz de Caminha enviou a El-Rei D. Manuel: "... posto que o capitam moor desta vossa frota e asy os outros capitaães screpuam a Vossa Alteza anoua..." Raios duplos! Isto é português do tempo do rascunho da Bíblia. Modernizemos, pois: "...mesmo que o Capitão-mor desta vossa frota e também os outros capitães escrevam a Vossa Alteza a notícia do achamento desta vossa Terra Nova..." Citei esta parte da carta de Caminha somente para mostrar a singularidade do termo utilizado por este para caracterizar a nova descoberta, a palavra "achamento". Além de bonita, individualmente e no contexto, tem um sentido bucólico.

Na época de Machado de Assis, o escritor-mor do Brasil, e um dos contribuintes ao incremento da possibilidade de variadas entrelinhas à língua, o uso e o significado do vocábulo "aposentar", necessariamente, não era encerrar a carreira depois de certo tempo de trabalho, e daí em diante receber mensalmente determinada quantia. Também, era muito empregado com o significado de ocupar aposentos, alojar-se. Por exemplo: Maria aposentou-se na casa de José. Há muito que, com esta finalidade, este termo encontra-se em desuso, da mesma maneira que "achamento", empregado pelo escrivão português.

Mas assim caminha a última flor do Lácio, tal um organismo darwiniano, modificando-se, diversificando-se, e no rally tresloucado rumo à modernidade, alguns vocábulos ficam para trás, esquecidos para sempre, quiçá prisioneiros da própria trama da linguagem genuína, correta e pura. São substituídos por outros, não-castiços, muitas vezes sem reciprocidade no vernáculo, mas nem por isso, filhos bastardos. É falada e escrita de maneiras diferentes, ainda assim isto também não a faz imperfeita. E até mesmo quando submetida a maus-tratos, tornando-se às vezes, inculta; vezes, obscura; apesar de tudo, continua sempre bela.
E como não tenho o dom do fazer versos, transcrevo abaixo uma homenagem maior, a do poeta parnasiano brasileiro Olavo Bilac (1865-1918).


Língua Portuguesa

Última flor do Lácio, inculta e bela,
És, a um tempo, esplendor e sepultura:
Ouro nativo, que na ganga impura
A bruta mina entre os cascalhos vela…

Amo-te assim, desconhecida e obscura.
Tuba de alto clangor, lira singela,
Que tens o trom e o silvo da procela,
E o arrolo da saudade e da ternura!

Amo o teu viço agreste e o teu aroma
De virgens selvas e de oceano largo!
Amo-te, ó rude e doloroso idioma,

Em que da voz materna ouvi: "meu filho!",
E em que Camões chorou, no exílio amargo,
O gênio sem ventura e o amor sem brilho!

EU E A MINHA NAMORADA NERD - PARTE 5 (Final)

Um cara de dezenove anos que está a ponto de começar o segundo ano na faculdade e uma garota de dezessete, ainda no terceiro ano colegial, não são os melhores aspirantes a um casamento estável e feliz. Contudo, se de fato C. estivesse grávida, este seria o caminho natural da nossa relação.
Ganhava uns trocados dando aulas de matemática, à noite, em cursos preparatórios para o vestibular, além disso, começaria um estágio em uma grande construtora assim que retornasse a Salvador, com remuneração de um salário mínimo por mês. Avisara à minha família que quando recebesse o primeiro pagamento do estágio eu dispensaria a ajuda financeira mensal que recebia de casa. É claro que houve muitos protestos da parte dos meus pais, mas decidira andar com as próprias pernas. Estudava na melhor universidade do Estado, por sinal, pública, dessa maneira, juntando o que receberia da construtora e das aulas, calculei que poderia me manter. O meu plano era tornar esta experiência - a de ser independente, tão proveitosa quanto os conhecimentos que adquiriria na universidade. Era um projeto que batizei na época com o nome de "capitão de indústria", pois no futuro, depois de algumas experiências como empregado de empresas de construção civil, pretendia estabelecer-me por conta própria na área de incorporação imobiliária, ou seja, projetar e construir meus próprios empreendimentos nos segmentos habitacional e comercial, e vendê-los. Naquele tempo, ainda desconhecia a concepção de ser "espartano" - a filosofia de vida com base na disciplina, força de vontade, hábitos simples e falta de apreço por supérfluos, um conjunto de práticas capaz de preparar qualquer um para o confronto com possíveis tempestades no tempo que há de vir. Nada obstante, sem saber, eu já era um deles.
Ademais, após a formatura, também pretendia pós-graduar-me em engenharia econômica, complexo de conhecimentos que julgava indispensável para um pretenso candidato a empreendedor. Entretanto, diante da hipótese da gravidez de C., fora rebaixado por antecipação ao posto de soldado raso de indústria. Teria de abandonar a faculdade, retornar à minha cidade natal e arranjar um emprego por lá, além de contrariar uma lei natural, pois pelo menos durante certo tempo teríamos de morar na casa dos meus pais ou na residência da família de C. Mas caminhar sobre chapa quente não constitui obstáculo insuperável aos otimistas de coração, apesar das circunstâncias desfavoráveis aos meus planos, ainda vislumbrava algo positivo naquilo tudo, ao menos me casaria com a mulher de quem gostava, a garota mais doce debaixo deste céu. Teríamos uma vida inteira pela frente para falarmos de sistemas operacionais, linhas de comando e jogos de computador. Concluí que, lá no alto, as estrelas fugazes ainda reservavam algum tanto de faíscas para mim.

Estudamos o assunto "gravidez" por mais de cinco dias e decidimos que o melhor a fazer era um teste. Um exame de sangue estava descartado, pois não teríamos como escondê-lo das nossas famílias, muito conhecidas por boa parte dos médicos da cidade. Assim, o método escolhido foi caseiro, utilizaríamos o famoso teste de farmácia.
Adentrei ao interior da Farmácia Cabral, a maior da cidade, e de imediato constatei que adquirir tal produto era tão constrangedor quanto comprar preservativos. A drogaria estava em dia de grande movimentação de pessoas, de maneira que achei prudente elaborar uma estratégia segura com o fim de cumprir a missão com sucesso. Andei de lá para cá pelas seções, cumprimentei a comadre de uma tia, subi duas vezes à balança para verificar o peso, descartei uma vendedora, pois essas coisas somente são compradas a um vendedor, e sem que ninguém esteja por perto, especialmente mulheres. De repente, uma miragem, um vendedor solitário no balcão. O sujeito tinha ar displicente, rosto excessivamente magro, parte da cabeça, acima das fontes, destituída precocemente de cabelo, mas um triângulo capilar fronteiriço à testa o livrava da condição de calvo. Também despertava atenção no excêntrico balconista, um inusual bigode fino a la Errol Flyn, e, em especial, o curioso hábito de entortar a boca para um lado e chupar os dentes, produzindo um ruído característico. Olhei para um lado, para o outro, e perguntei-lhe com voz sussurrada se tinha teste de gravidez. Ele fitou-me por alguns instantes, apurando a displicência estampada na face, sustentou a condição boca torta, não parou de sugar os dentes e ainda acrescentou um cacoete inédito, empenou a cabeça para um lado. E nada respondeu. Indaguei-lhe de novo, incrementando sigilo na voz: "tem teste de gravidez?". Ele correu as vistas para o lado oposto do interior da farmácia, e bradou para um colega: "ô Arnaldôôô! Agente tem teste de gravidez?" Súbito, tornei-me uma celebridade por alguns segundos, pois muitos dos clientes olharam de modo curioso em minha direção. Raio de chupa-dentes, pensei. Mas as emoções mais fortes ainda estavam para acontecer, pois justo no momento em que ele entregou-me o sigiloso produto, fui surpreendido pela distinta senhora M.B., irmã da minha antiga professora de Ciências e pertencente a uma família quatrocentista de Ilhéus, a qual, gabava-se de um seu antepassado ter feito parte da comitiva que recebera o imperador D. Pedro II quando este aportou nesta cidade, no século XIX. Sorri sem graça para ela, e balbuciei: "não é para mim". Ele conservou a pose aristocrática, e respondeu: "é lógico que não". Deu meia-volta e caminhou noutra direção, seguida por uma variedade de fantasmas, antigos frequentadores da corte de D. Pedro II.
Para a minha alegria, o teste de gravidez de C. deu negativo, e o melhor é que dois dias depois ela submeteu-se ao mais confiável de todos os exames, menstruara.
Y en una noche tibia, onde estrelas fugazes bailavam numa coreografia cintilante sob o céu, depois de bater o recorde de beijos dados em uma mulher, embarquei de ônibus para Salvador.

Continuamos o namoro por e-mail, IRC, telefone e em visitas que fazia ao interior, nos feriados prolongados. No meio do ano, no Dia de São João, a festa maior do Nordeste, talvez por influência dos eventos das últimas férias, C. considerou que deveríamos casar-nos. Disse-lhe que aquilo era loucura, ela nem sequer era maior de idade, completaria dezoito anos em Setembro próximo, e, sobretudo, eu não tinha renda para sustentar uma família. Ela retrucou, afirmando que trabalharia em Salvador, estudaria à noite e que não fazia questão de vida suntuosa. Brinquei, lembrando-lhe a sua condição de filha única, que fazia parte de uma família de alto padrão econômico e que o nosso casamento sucumbiria no instante em que ela não pudesse trocar o seu computador dotado de processador Pentium MMX de 200Mhz, por outro mais avançado. Foram dias de trovão, mesmo com dezenove anos adoraria tê-la como minha mulher, porém, para vivermos sustentados pelos nossos pais, jamais. E no mês de Setembro, antes que C. completasse dezoito anos o romance encerrou-se. Até hoje ela nunca aceitou a minha recusa àquele plano tresloucado, se decepcionara de verdade. Também, jamais duvidei do acerto da minha decisão.

NO ANO SEGUINTE C. ingressou na faculdade, no curso de Ciências da Computação e casou-se no final deste mesmo ano. Mas a união durou poucos meses.
Não a via desde que terminamos o namoro, até que um dia encontrei-a por acaso e, meio-constrangida, ela contou-me que o seu casamento fora um erro. Quis deixá-la mais à vontade, e brinquei: "você nunca deveria casar-se com um cara que é usuário de um único sistema operacional". Era uma piada nerd. Eu, por exemplo, como um bom geek, uso três, o Linux - o meu sistema padrão, o Windows XP e o velho MS-DOS, todos instalados na mesma máquina. Ela sorriu, e fingindo-se de brava encostou com delicadeza o punho fechado no meu rosto, simulando um soco, e falou: "você foi o culpado! Me abandonou".
C. foi a única mulher com a qual mantive mais de um romance, todos os três arquivados entre as minhas melhores lembranças. Somos amigos até hoje, ainda gostamos de jogos de computador, da linguagem C++ e de operar máquinas utilizando-se de consoles. Apesar da sua alta qualificação em informática, quase sempre é derrotada por mim em jogos online. E nestas ocasiões, sempre repito uma expressão antiga e muito conhecida por ela: "hail to the king, baby!"1

SEJA UM GEEK VOCÊ TAMBÉM!

Ser um geek ou nerd é produzir um overclocking nos neurônios, forçando-os ao máximo, é muito mais do que gostar de jogos eletrônicos e de fazer peripécias em computadores. Logo, comece pelo que é mais divertido, os jogos. No clipe abaixo, selecionei algumas cenas dos meus preferidos, nos gêneros estratégia e first person. Comprovarão que alguns deles são cinematográficos. Já ouviram as minhas atuações aqui, como instrumentista doméstico de jazz e de música erudita, todavia, desconhecem o Pickwick rocker. Se lhe interessar, ouça a minha atuação na trilha sonora deste videoclipe. Aumente o som e let's rock!


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A qualidade da audição é sofrível pelas seguintes razões, o arquivo original de gravação da música é no formato WAV, de tamanho igual a 30 Mb, muito grande para postar na internet. Para inseri-lo no clipe, o converti para o formato Mp3, com aproximados 3,5 Mb, resultando em grande perda de qualidade de áudio, por conseguinte, comprometendo parcialmente o som realístico dos instrumentos.
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Nota:
1) Tradução forçada: " Saúde o rei do pedaço, garota!" Expressão usada pela personagem de Duke Nukem, no jogo de mesmo nome. Neste contexto, saúde é o presente do subjuntivo do verbo saudar.

EU E A MINHA NAMORADA NERD - PARTE 4

Minha mãe ignorou a alegação "saliência zero" que atribuí à barriga de C, e contra-argumentou: "no começo é assim mesmo. Sabe muito bem que nestes casos a sua avó jamais erra". A fitei bem nos olhos, e percebi que a sua certeza era comparável a de Galileu em referência ao heliocentrismo. Dirigi, então, as minhas vistas para as de meu pai e notei que os seus olhos verdes-azulados tremeluziam, porém, em alguns daqueles micro-lampejos apercebi que a mesma incredulidade característica do apóstolo Tomé conflitava com o princípio de verdade necessária e cujo oposto é impossível, impregnado na afirmação da minha avó. Solidariedade masculina, ou não, aquele era o meu pai. Era ver para crer. Aquilo deu-me certo ânimo, e varri a minha mente em busca de uma saída. "A prima Ester", pensei. Sim, a prima Ester. Raios duplos! Como não lembrara disso antes? E na iminência da derrota mediante o embate contra "adversário" tão poderoso, ou seja, a minha avó, urgia empreender nova tática. Assim, optei por desqualificá-la em seu ponto mais forte: a sua vocação para exame de ultra-sonografia ambulante. Tocado por um sopro de confiança, senti certo alívio, e conjurei: "a reputação de infalibilidade papal desta velha em diagnósticos de gravidez está com os minutos contados".

Durante parte da minha infância e adolescência fui o comprador oficial dos remédios, dos cremes e das loções da minha avó. Esta era uma função cobiçada entre todos os meus primos, visto que a velhinha era generosa em remunerar tal tarefa, o que resultava em um pequeno adicional à mesada que recebia dos meus pais. Sempre tive como verdadeiro que tais medicamentos compunham o estratagema perfeito com o qual ela dissimulava a sua vaidade e real intenção, isto é, a compra de cosméticos, pois até os cem anos, quando enfim o seu coração parou, a sua saúde sempre assemelhou-se a de um touro, além da vaidade que o seguiu com fidelidade canina até o fim dos seus dias. Eram remédios inofensivos, daqueles categorizados como se bem não fizer, mal é que não faz. Antigos e superados mesmo aquela época, até hoje ainda me lembro do nome de alguns deles: Maravilha Curativa do Dr. Humphreys, Leite De Magnesia De Phillips, Vinho Reconstituinte Silva Araújo. Neste último, o próprio nome já constituía um fator de descrédito, pois o leitor há de convir que nenhum medicamento "sério" exibiria na composição do seu nome a palavra "vinho".

Ali, naquela sala, "acuado" de igual modo a um computador dotado de processador anterior à geração Core 2 Duo quando se abre vários aplicativos simultâneos, levantei-me do sofá e dei início à minha "defesa". De frente para a minha mãe, falei: "lembre-se da prima Ester". Meu pai movimentou-se no sofá e abriu os olhos de forma incomum, como se preste a ouvir revelações de confessionário. De imediato, a minha mãe baixou as vistas, sentando-se ao seu lado, provavelmente em busca de apoio para a minha tréplica. "Sim", continuei, "a pobre coitada, recém-casada, ansiosa para ter um filho, e sequer sem fazer um exame médico de verdade, deu crédito a afirmação de vovó quando lhe dissera que ela esperava um bebê". Era um caso conhecido na família, todavia já meio-esquecido. Nem bem se passaram duas semanas da previsão da velha, a prima Ester e o marido já haviam decorado o quarto do futuro nenê. Em cor-de-rosa, pois a velha também dissera que seria uma menina. Quatro anos depois, entre muitas idas e vindas a muitos médicos, laboratórios e hospitais, finalmente, o casal de primos foi agraciado com a tão sonhada criança. Um menino.
Sustentei que C. não estava grávida, afinal, éramos cuidadosos e responsáveis. Confesso que estas três últimas palavras causaram certo frisson, mas o meu pai, então, levantou-se do sofá dando de ombros, e falou: "se você diz, eu acredito". E fomos todos para a sala de jantar. Tive a sensação de que foi a primeira vez em que disseram crer nalguma coisa que afirmara, mas com reservas.
Mais tarde, por telefone, contei tudo a C., que ainda brincou: "ah! Que lindo. Bem que a sua avó poderia estar com a razão".

Minha mãe comentara com a minha irmã mais velha a respeito das suspeitas da vovó. No outro dia, no colégio, esta contou o episódio à sua melhor amiga, e é claro que pediu o maior sigilo sobre o assunto. Baseado no preceito de que todos tem um melhor amigo, a colega da minha irmã, por sua vez, transmitiu a informação à sua confidente mais próxima. Não é preciso maiores conhecimentos de matemática para supor que a notícia se espalharia pela cidade em progressão geométrica.
Logo, tornei-me o alvo principal da zombaria dos amigos. E durante todo o tempo, ouvia coisas do tipo: "e aí, se for menino, vai se chamar Tron?" Afora algumas mamadeiras e chupetas que ganhei de presente. Neste período, colhi mais dados para a teoria de que as mulheres têm origem em outro planeta, pois não houve sequer um indício de gozação da parte delas. Muito ao contrário, algumas até me olhavam com um misto de curiosidade e admiração. Às vezes, imaginava que me viam como se fosse um daqueles bichos de exposição, reprodutores de boa linhagem.
Mas, nessa vida, nada é para sempre. Dessa maneira, alguns dias depois o assunto foi esquecido por completo.
Vezes, acredito que por meios muito além das leis da mecânica celeste, o amor é capaz de fornecer lúmens extras às estrelas. Se não acredita, pergunte aos poetas. Eles sabem disso muito bem. Y en una noche hermosa de prenilunio, debaixo de um céu de iluminamento passional, bati à porta da moradia da minha princesa dos bytes. Mais graciosa ainda sob a luz das estrelas cúmplices, ela abraçou-me com a força de dez tigres, permanecendo daquele jeito, e em silêncio, por certo espaço de tempo. Perscrutei a noite e ouvi o que parecia o som de um soluço contido. Me liberei um pouco do seu abraço, olhando-a de frente. Incapaz de conter o choro por mais tempo, ela disse: "estou desesperada! Há onze dias que a menstruação não vem". Raios! Nunca mais voltarei a olhar para uma estrela fugaz, pensei. Aquilo tornara-se análogo a uma conspiração tramada no Kremlin.

Continua na Parte 5 (Final), em 02.05.2009. Até lá!
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Ilustração: The Gossip, de Norman Rockwell

EU E A MINHA NAMORADA NERD - PARTE 3

Dia-a-dia aquelas férias tornavam-se as mais inesquecíveis da minha vida. A paixão - seja de qualquer natureza, age de igual modo ao princípio da Lei da Alavanca, de Arquimedes, é o empuxo capaz de mover o mundo, além de geratriz de todas as coisas. Porém, não é privilégio apenas dos grandes feitos, como aqueles da odisséia de Vasco da Gama narrados em versos por Camões. Apesar da sutil predileção por revoluções, ela também manifesta-se em ações comuns, a exemplo da minha admiração pela maneira vintage de vestir-se de C. E é claro que dizia isso para ela. Omitir ou dissimular, por negligência ou não, as coisas que vêem ao coração, é o mesmo que amar o abismo sem possuir o dom de voar.

Os dias passavam e aproveitávamos ao máximo a incrível aventura de nos descobrirmos. Cantava baladas melosas de James Taylor para ela; ouvíamos guitarras virtuosas de dinossauros do rock; e hackeávamos códigos-fonte de jogos 3D1 de computador só para escrevermos mensagens românticas um para o outro em uma parede ou numa porta dos cenários destes jogos. Certa ocasião, desenhei um outdoor no cenário do episódio Los Angeles Meltdown do jogo de computador Duke Nukem 3D, com a frase: "C. should not die, 'cause I love her"2. Era uma brincadeira romântica a la geek que referia-se a uma circunstância do contexto deste jogo, pois no decorrer da ação, frequentemente o herói deparava-se com a mensagem "Duke Nukem must die"3 escrita em graffiti pelos vilões em algum lugar dos ambientes por onde ele transitava. Neste caso a cidade de Los Angeles, parcialmente destruída por um grande terremoto e infiltrada de seres alienígenas. Ela diz que até hoje ainda guarda o screenshot4 desta cena, isto é, a "fotografia" do outdoor que desenhei.

De outra feita, à custa de muito trabalho adulterei o arquivo cfg - escrito em linguagem C++5, de um jogo chamado Quake e substituí o nome original de uma personagem feminina pelo dela, além de atribuí-la a qualidade de invulnerável e acrescentar mais poder letal para as suas armas. Dessa maneira, nos jogos coletivos em redes domésticas de computadores que ocasionalmente montávamos em casa ou na de amigos, ela jamais seria destruída. "C. nunca morre", dizia-lhe baixinho ao ouvido. Ela olhava para mim com o mais cúmplice dos sorrisos e beijava de leve o meu rosto. Sob protestos dos demais, é óbvio, que manifestavam-se em coro: "Êêêê... isto é um jogo e não uma lua-de-mel". Para uma garota nerd, acredito que aquilo era tão significativo quanto receber um caminhão de flores.

O fim das férias aproximava-se e por conseguinte a iminência do meu retorno à faculdade, em Salvador. Certo dia, ao chegar em casa acompanhado de C., como já tornara-se corriqueiro, mais uma vez encontramos a minha avó em visita à casa dos meus pais e, como sempre fazia, a velha a cobriu de beijos, abraços e mimos. Já me acostumara aquela cena, porém neste dia tive a sensação de que a duração do abraço da velha consumira pelo menos o dobro do tempo se comparado aqueles de outras ocasiões. Além do mais, durante o prolongado e afetuoso amplexo a velha não parava de repetir: "oh, minha netinha; oh, minha linda netinha!" E enquanto nos dirigíamos ao meu quarto, C. disse: "a sua avó é tão carinhosa comigo". "Não me surpreende", respondi, "você derrete até geleira glacial".
No comecinho da noite, depois de levar C. à sua residência, ao retornar, a minha mãe chamou-me a uma sala da nossa casa que era reservada para receber visitas. Meu pai encontrava-se lá, sentado no sofá, e curiosamente notei que a TV estava desligada. Beijei-o, e em seguida sentei-me ao seu lado. Quando ia indagar porque não estavam assistindo ao noticiário da TV, a minha mãe - ainda de pé, falou: "A sua avó diz que C. está grávida". Em minhas lucubrações sempre idealizei que teria seis filhos, mas aquele não era o momento certo para iniciar tal prole. "Grávida?", retruquei, "como ela pode dizer isso, se a sua barriga está mais reta que uma tábua".
A minha avó celebrizara-se na família pelo curioso ato de "bater" os olhos na barriga de uma mulher e "diagnosticar" se esta encontrava-se grávida, ou não.
Raios de estrelas fugazes! Como argumentar contra esta afirmativa da minha avó, se a velha exibia em seu "currículo" uma margem de quase 100% de acerto em suas previsões?

Continua na Parte 4, em 24.04.2009. Até lá!
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Notas:

1) A visão de um jogo 3D é a mesma de quando se assiste a um filme, com a diferença que você interage com a história, desde as ações mais singelas, como por exemplo, abrir portas e mover objetos, até cumprir objetivos complexos. Nos últimos anos este segmento da informática investiu forte em desenvolvimento, especialmente no realismo das cenas e efeitos especiais. Tanto é o esmero, que até mesmo orquestras sinfônicas famosas são contratadas para a execução das trilhas sonoras de muitos deles. Ou bandas de rock, naqueles de muita ação.
A indústria dos jogos tem faturamento anual duas vezes maior que a indústria cinematográfica de Hollywood;
2) C. não deve morrer, porque a amo;
3) Duke Nukem deve morrer;
4) Imagem capturada da tela de um computador por uso da tecla "Print Screen"; ou por um mecanismo do próprio software; ou ainda por um aplicativo independente;
5) C++ é a linguagem de programação mais utilizada no desenvolvimento de jogos de computadores e de consoles do tipo Xbox, Playstation ou Super Nintendo. É responsável, dentre outras coisas, pela "inteligência artificial" das personagens.

EU E A MINHA NAMORADA NERD - PARTE 2

Naquele dia, saí da casa do meu primo ao pôr-do-sol, somente depois que a mãe de C. veio chamá-la.
À noite, telefonei para ela. E eu que sempre detestei falar nestes aparelhos por mais de cinco minutos, desta vez esquentei a orelha, pois conversamos durante quase duas horas. Nesse intervalo, fiz descobertas mais maravilhosas que as de Vasco da Gama, o maior navegador de todos os tempos. Dizem que todo nerd ou geek - além de amar a tecnologia, brinquedos eletrônicos e ciências matemáticas, coleciona alguma coisa. Descobri, também, que C. colecionava a vanguardista Sin City, de Frank Miller, portanto, do mesmo modo que eu, uma iniciada em histórias em quadrinhos. Desde aquela ápoca, e até hoje, ainda coleciono revistas antigas deste gênero. Possuo exemplares raros, originais e escaneados, de publicações das décadas de 30, 40 e 50. Clássicos de Alex Raymond, Will Eisner, Sax Rohmer, dentre outros.

Após desligar o telefone, fiz conjeturas assombrosas: a C., apesar de mulher, sabia tudo que os meus melhores amigos sabiam sobre jogos de computador, RPG, linhas de comando, linguagem de programação, histórias em quadrinhos, hard rock e heavy metal. Com mil bytes! Isto era um acontecimento tão raro quanto uma conjunção de planetas. O que mais poderia desejar? Uma estrela fugaz iluminava os meus passos.

No quinto dia do romance, no início da tarde, levei a C. à minha casa, queria mostrá-la o meu arsenal geek. Apresentei-a à minha mãe e também à minha avó materna que por lá encontrava-se em mais uma de suas visitas frequentes. A velha a cobriu de mimos, abraços e beijos, como se C. fosse a sua neta mais querida.
Naquele tempo, não era corrente uma garota permanecer durante uma tarde inteira no quarto do namorado, todavia, os meus pais confiavam tanto na orientação dispensada aos filhos que jamais houvera nenhuma restrição a tais circunstâncias. Ainda que a minha avó fosse radicalmente contra esta atitude um tanto liberal dos meus pais. "Com estas modernices, qualquer dia destes vocês ganham um netinho", cassandreava a velha.
Ao final da tarde levei C. de volta para a sua casa, e ao retornar, deparei com a minha avó a qual, entre outros agrados, disse-me: "são muito bonitos os olhos verdes e as pernas de miss da sua namorada. Vocês formam um belo casalzinho". A velha fazia uma alusão aos paleolíticos e kitsches concursos de beleza da época, tais como o Miss Universo e o Miss Mundo. Sorri de leve e caminhei na direção do meu quarto. No momento exato em que descalçava um dos sapatos, como é frequente no Windows, o meu cérebro travou ao lembrar de um detalhe da frase dita pela velha: "pernas de miss". E ainda de igual modo a este software monopolista, como o meu cérebro não é dotado de memória swap - um reforço extra presente no sistema operacional Linux, considerei que melhor seria submetê-lo a um boot, ou, no dizer dos não-geeks, reiniciá-lo.

Com mil kbytes! De uma só vez fizera duas descobertas importantes sobre homens e mulheres. A primeira, referia-se as razões pelas quais a maioria dos meus amigos zombavam de mim logo que souberam do meu envolvimento com C. Eles a consideravam chata, compenetrada e CDF1. Além disso, também diziam que ela passava tempo demais diante de um computador. Percebem a relatividade das coisas? Pois, qual mortal, hoje, ficaria um dia sequer longe desta máquina? Mas as motivações das chacotas dos amigos agora tornavam-se claras como o mais puro cristal. Senão, vejamos. Os três maiores temores que acometem a maior parte dos homens ao abordarem uma mulher são, em ordem decrescente: 3) que ela seja eclética, dotada de muitos conhecimentos; 2) ou, muito bonita; 1) e a pior situação, ela possui ambos os atributos citados anteriormente. Neste caso, é uma situação análoga aquela de prestar exame para obter carteira de motorista, dá a maior tremedeira nas pernas. Para muitos, é mais fácil enfrentar o Godzilla.
Mas a segunda descoberta foi ainda melhor. Não é que a minha avó tinha mesmo razão? De tão fissurado no conteúdo intelectual de C., eu mal percebera as suas lindas e sutilmente torneadas pernas. Era uma ocorrência inédita para mim, pois do contrário de qualquer daqueles personagens-cabeça de Virginia Woolf, até então jamais me aproximara de qualquer mulher - com intenções de romance, que não fosse movido por atração física. Urgia conhecer melhor o mapa topográfico da minha nova namorada. Assim, designei à minha imaginação o comando de uma nave espacial semelhante a X-Wing, aquela do Luke Skywalker. E tomei o rumo do hiperespaço. Na forma de um holograma tridimensional, comecei a materializar a C. em minha mente, além de atribuí-la componentes femininos de outros povos. O nariz, me parecia meio-egípcio, assemelhava-se ao de Cleópatra. E, sendo esta poderosa e fascinante rainha pertencente à dinastia ptolemaica, resultava em C. um charmoso plugin: um nariz mesclado com um quê de grego. Ah! Que nariz! Quanto aos olhos, eram expressivos e claros como os de uma variedade de mulheres libanesas. Pescoço e busto, lembravam aqueles das mulheres da antiga Pérsia, o povo mais belo do oriente, segundo Heródoto. Naquele momento, nem o próprio Michelângelo era páreo para a minha faculdade imaginativa de esculpir a C.

Algumas horas depois, à noite, quando fui à sua casa, contei essas coisas para ela. De início, ela avermelhou igual a um antigo comunista da Albânia. Depois, riu muito. Também, disse-lhe que a circunstância de descobrir que ela era uma bonita garota somente cinco dias depois do início do namoro até que seria bom para o relacionamento. Pois que, se no futuro - além de nerd, ela se tornasse uma feminista ortodoxa, jamais poderia acusar-me de que me aproximei dela exclusivamente por causa dos seus lindos olhos e das suas pernas deliciosas. Antes de tudo, eu me apaixonara pelos seus neurônios. Ela sorriu meio-tímida e me deu um beijo mais longo que o processo de inicialização do Windows Millenium2.
Com mil megabytes! Uma constelação de estrelas fugazes me iluminavam. ;o)

Continua na Parte 3, em 17.04.2009. Até lá!
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Notas:

1) CDF, iniciais de cu-de-ferro. Pronuncia-se "cê-dê-efe". Diz-se de, ou pessoa que leva extremamente a sério seus trabalhos, estudos e compromissos.
Fonte: Novo Dicionário Eletrônico Aurélio, versão 5.0.
2) Por consenso mundial, a pior versão do Windows em todos os tempos. Nem mesmo o Windows Vista conseguiu superá-lo por mau desempenho. ;)